18 de ago de 2016

Propínquo

Ao seu redor, via luzes acenderem, e ouvia burburinho.
Súbito, havia bebidas e risos, e música um pouco alta.

Pessoas deslumbrantes pareciam flutuar sobre o chão: nenhum movimento era desperdiçado, cada gole minuciosamente calculado, cada gafe - se é que assim poderia chamá-las - oportunamente acontecia em frente à uma câmera que não cansava de disparar seus flashes, atraindo assim tantas outras. E lá, o tão constrangido autor do deslize, finge um sorriso amarelo e explica-se para pessoas que no mesmo instante publicam suas notinhas no Twitter.


Ele estava encostado na mesma parede desde que chegara. Pensava que talvez devesse arriscar uma caminhada pelo salão, pensava que talvez pudesse entender aquilo tudo, encontrar algum sentido para o vai e vem frenético de cheio de pose de tantas pessoas.

Notava eventualmente um grupinho formando-se em torno de alguém. E esse alguém era sempre tão simpático com todos ali, e faziam selfies e faziam questão de serem vistos um com o outro, por um tempo nem tão curto, nem tão longo, e apostava perceber Fibonacci ali.

Ele não era diferente. Bom, não tanto, pelo menos. Estava ali, não estava? Era peça de cenário como tantos outros. Foi cumprimentado, é verdade, mas um cumprimento destinado àqueles que orbitavam o ambiente, cumprimento que normalmente terminava com a promessa de marcarem um almoço para colocar a conversa em dia.

Aos poucos, algumas vozes ficavam mais altas, alguns ânimos, a fumaça de cheiro doce e a distribuição de homenagens e condecorações que davam, eles, uns aos outros, com um critério que nunca soube entender bem.

Quando percebeu-se mimetizado ao ambiente, sentiu o típico desespero que suplicava para que fosse embora.

E assim o fez, depositando a taça de champagne sobre a bandeja de um garçom que passara desavisado, mas que já se acostumara a não ver ou ser visto.

No caminho para o carro, com a chave na mão, era costumeiro sentir-se cobrado para ficar mais tempo. Reconhecia a sensação de que perderia alguma coisa, alguma chance, alguma palavra diferente; mas lembrara de todas as vezes em que atendera à sensação e, com isso, levara outra embora: a da frustração.

Então partira sozinho, cortando durante a madrugada a longa distância que separava tudo aquilo, todos aqueles, da vida real.



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Publicado por Renato Alt