17 de set de 2004

:: Adios, Johnny ::

Rockeiros não podem morrer por doença. Nem de velhice. Pelo menos não os que movem gerações, que ditam modo de vida, que inspiram a juventude. Que são ícones de rebeldia. Rockeiros são imortais para qualquer das coisas que acometem a nós outros, como os vírus loucos que aparecem de vez em quando pelos ares.

Por isso, ver Johnny Ramone morrer de câncer foi uma overdose de realidade.
Ele estava em outro patamar.
Não é justo.

Rockeiros têm que causar espanto, morrer de uma hora pra outra, subitamente. Num acidente de avião, como tantos do Lynryd Skynryd. Ou suicidando, como Michael Hutchence. Ou pelo abuso dos seus – digamos – hábitos, como Layne Staley e mais uma infinidade de outros, inclusive Dee Dee Ramone. Ou ainda por uma combinação dos dois, como Kurt Cobain.

Doenças e velhice são para nós. Imagine ouvir que “Jim Morrison morreu hoje, aos 87 anos, por complicações decorrentes do Mal de Alzheimer”.
Rockeiros são eternos. Não é certo que sejam tirados de nós assim, de maneira tão trivial.Como disse primeiro Neil Young, e depois Kurt, “é melhor queimar do que se apagar aos poucos.”

E assim vai Johnny, como também foi Joey. Uma morte sem floreios, direta e profundamente impactante para o rock. Como uma música dos Ramones.

3 de set de 2004

:: Monstros S.A. ::

Já me convenci há muito tempo de que todos nós somos monstros em potencial. Na verdade, chegar à essa conclusão, convenhamos, não é nenhuma descoberta da pólvora. O que na verdade assusta é perceber o quanto a linha que separa o Dr. Jekyll do Mr. Hyde está cada vez mais frágil.

Trabalho no centro da cidade. Todos os dias preciso me esquivar de milhares de panfleteiros, que me soterrariam com seus folhetos se estendesse a mão pra todos eles, principalmente em ano eleitoral. Fora o cuidado com as mãos, há também o cuidado com os pés: os camelôs estendem suas “lojas” pelo meio das calçadas, e se torna mais difícil caminhar pela Rua da Assembléia que por Sarajevo. Na mistura, ainda encontramos as pessoas eternamente apressadas em seus vai e vens e os Darth Vaders, aqueles policiais que quem frequenta o Centro já conhece, que a qualquer momento podem começar a correr e provocar um estouro de boiada nos camelôs. E aí vira festa: as lojas fecham correndo e as pessoas se jogam por baixo das portas como se fossem Indiana Jones. Nessa hora, todas as caras indiferentes que passavam por você na rua tentam fingir que são suas amigas de infância. Alguém vai contar de quando foi assaltado ou de um amigo que passou uma situação parecida, mas pior. Não se iluda achando que vai escapar disso.

É nessas horas que a tal linha corre o risco de ser rompida. Seja sincero: vai dizer que você não teve vontade de fazer quase tudo que o Michael Douglas fez no seu “Dia de Fúria”? Por isso, todo cuidado é pouco. Inclusive comigo. Afinal de contas, eu já li “O Apanhador no Campo de Centeio”, li “A Sangue Frio” (do Truman Capote!) e acertei o motivo que levou a menina a matar a irmã, naquele e-mail que anda circulando por aí. E acertei de primeira.