3 de set de 2004

:: Monstros S.A. ::

Já me convenci há muito tempo de que todos nós somos monstros em potencial. Na verdade, chegar à essa conclusão, convenhamos, não é nenhuma descoberta da pólvora. O que na verdade assusta é perceber o quanto a linha que separa o Dr. Jekyll do Mr. Hyde está cada vez mais frágil.

Trabalho no centro da cidade. Todos os dias preciso me esquivar de milhares de panfleteiros, que me soterrariam com seus folhetos se estendesse a mão pra todos eles, principalmente em ano eleitoral. Fora o cuidado com as mãos, há também o cuidado com os pés: os camelôs estendem suas “lojas” pelo meio das calçadas, e se torna mais difícil caminhar pela Rua da Assembléia que por Sarajevo. Na mistura, ainda encontramos as pessoas eternamente apressadas em seus vai e vens e os Darth Vaders, aqueles policiais que quem frequenta o Centro já conhece, que a qualquer momento podem começar a correr e provocar um estouro de boiada nos camelôs. E aí vira festa: as lojas fecham correndo e as pessoas se jogam por baixo das portas como se fossem Indiana Jones. Nessa hora, todas as caras indiferentes que passavam por você na rua tentam fingir que são suas amigas de infância. Alguém vai contar de quando foi assaltado ou de um amigo que passou uma situação parecida, mas pior. Não se iluda achando que vai escapar disso.

É nessas horas que a tal linha corre o risco de ser rompida. Seja sincero: vai dizer que você não teve vontade de fazer quase tudo que o Michael Douglas fez no seu “Dia de Fúria”? Por isso, todo cuidado é pouco. Inclusive comigo. Afinal de contas, eu já li “O Apanhador no Campo de Centeio”, li “A Sangue Frio” (do Truman Capote!) e acertei o motivo que levou a menina a matar a irmã, naquele e-mail que anda circulando por aí. E acertei de primeira.


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