29 de out de 2004

:: Formar-se ou conformar-se ::

Hoje em dia muita gente tem se preocupado em conquistar títulos pra colocar uma linha ou duas a mais nos currículos e se preocupado menos em pensar pela própria cabeça. Tanto que não páram de surgir novos cursos de MBA, MBMA, VHS e praticamente qualquer combinação de letras que resultem numa sigla foneticamente aceitável. Cultura não ocupa espaço, isso é fato. O problema é quando o que se ouve ocupa o lugar dos próprios pensamentos. E isso é o que tem acontecido cada vez mais.

Pra quê formular suas idéias se o Dr. Fulano, PHD, disse que é assim? Ou se o best-seller “tal” diz que é de outro jeito? Claro, não precisa, é muito mais cômodo. O impressionante é que as pessoas historicamente pertinentes foram justamente aquelas que fizeram questão de pensar de forma diferente da maioria. Ou que, pelo menos, sentiram-se à vontade para encontrar as próprias respostas ao invés de buscá-las já prontas nos livros de um autor qualquer. Nada contra os livros, pelo contrário. Mas eles devem ensinar a pensar, e não simplesmente determinar o que é certo ou não.

A humanidade já passou por períodos grandes demais de retenção e manipulação da informação e da verdade. A quantidade de conhecimento que se perdeu e que se deixou perder propositalmente foi e ainda é absurda. Por isso, mais absurdo ainda é as pessoas deixarem que instuições e títulos sejam responsáveis pela criação de seus próprios pensamentos. Ou, ainda pior, achar que nada disso está de fato acontecendo.

18 de out de 2004

:: O Fenômeno das portas ::

Ontem, quando consegui lembrar como é chegar em casa antes do Intercine ou do Concurso Garota Abusada, pude perceber um fenômeno interessante que acontece nas novelas. Batizei de “Fenômeno da Porta”.

O Fenômeno da Porta se manifesta sempre que alguma coisa importante está para acontecer. Por exemplo: o cara, depois de anos, desiste de procurar a esposa que desapareceu. Aí, decisão tomada, pronto para deixar a casa que traz tantas lembranças, abre a porta e… lá está ela, ressurgida das cinzas. Claro, o capítulo acaba nessa hora. E geralmente é o de sábado.

Na vida das agências acontece uma coisa parecida. Só que, muitas vezes, sem direito a domingo pra dar uma respirada antes do capítulo seguinte. Vou explicar o que estou tentando dizer.

Cliente complicado todo mundo tem. E, claro, ninguém é santo pra ficar aguentando milhares e milhares de alterações naquele tijolinho dos classificados que, no briefing, começou como página dupla de Veja. Só que pra quem olha de fora, o trabalho que era pra ser feito era aquele ali. Daquele tamanho, desde o início. Se não ficar legal, não vai dar pra ir de agência em agência pra explicar o que aconteceu. Muito menos de cliente em cliente. E os prospects, depois dessa, vão continuar sendo prospects mesmo. Pelo menos pra você.

É aí que entra o Fenômeno.

Pode apostar, sempre tem alguma agência na porta do seu cliente.
E ele vai dar de cara com ela assim que abrir. Não por que tem gente sendo anti-ética por aí, passando layouts por debaixo da soleira, mas por que o cliente quer ser bem atendido e vai buscar isso. É aquela questão: um trabalho ruim aparece muito, mas um trabalho bom aparece mais ainda. E ele está vendo todos. Se a conta ainda está sendo prospectada, então, a coisa fica mais grave ainda. Afinal, nesse ponto, ninguém tem vínculo com ninguém.

Por isso, mais do que nunca, toda agência precisa ter os pés no chão. Claro que isso não significa acatar cegamente tudo o que for imposto pelo cliente, até por que se alguma coisa está sendo imposta é porque a relação já ficou esquisita. Mas muitas vezes fazer o tal tijolinho, respeitando a comunicação, é melhor pra todo mundo. O cliente se sente prestigiado e a agência resolve o problema. E além disso, consegue o mais importante: deixar a porta bem fechada.

14 de out de 2004

:: Sobre a mania de Concursos ::

Me deixem em paz, não quero fazer concurso público.

Hoje em dia parece que todo mundo pensa que entrar pra carreira pública é a solução para todos os problemas. Ninguém mais pensa em se tornar um grande médico, ou advogado, ou publicitário ou o que quer que seja. O grande negócio é fugir da vida social por um ou dois anos, gastar milhares de reais em livros e palestras pseudo-miraculosas e então, zás: brigar por uma das (poucas) vagas que eventualmente surgem para o funcionarismo público. E o que acontece? As pessoas deixam de fazer o que devem fazer pra fazer o que é melhor para si mesmas aqui e agora. E só. Num primeiro momento isso parece ser o caminho óbvio mesmo, mas sabe o que mais? Até pensar isso já é um reflexo da sociedade imediatista e egoista onde a gente vive.

Onde estão os sonhadores? Onde foi parar aquele espírito que sempre caracterizou a juventude, que era o de projetar alguma coisa a mais para o futuro que não só garantir um salário da maneira como for?

Nunca se venderam tantas palestras e livros sobre concursos públicos quanto hoje em dia. O pior é ver, por exemplo, as pencas de estudantes de direito que nem mesmo cogitam a possibilidade de um dia advogar. Afinal de contas, é a área onde mais acontece isso. Mas não a única. Eu mesmo conheço gente que desistiu das carreiras que estavam seguindo pra largar tudo e partir pra um concurso. E o que é mais grave: as pessoas como eu, que nunca tiveram o funcionarismo público como objetivo, parece que são as erradas nessa história toda. Só que, pasmem, não quero mesmo. Os argumentos contra nós são muitos: instabilidade (que é realmente preocupante), problemas com direitos trabalhistas etc. Mas com isso, se enterra até a possibilidade de alguém conseguir progredir na vida com as próprias pernas, construindo alguma coisa realmente nova. Afinal, quem vai querer tomar a iniciativa quando é tão mais cômodo pegar o produto pronto? Vamos nessa, é só mandar a conta pro Estado. E quem precisar de um profissional qualquer no futuro, que supra a falta dele buscando respostas em enciclopédias. Ou indo embora, infelizmente, para lugares onde a iniciativa privada ainda é uma das grandes impulsionadoras do conhecimento, das descobertas científicas e principal estimuladora dos jovens profissionais.

Que me desculpem aqueles que tentam os concursos com um objetivo realmente nobre. Mas do jeito que as coisas andam, vão faltar cadeiras pra acomodar tantos paletós.