14 de out de 2004

:: Sobre a mania de Concursos ::

Me deixem em paz, não quero fazer concurso público.

Hoje em dia parece que todo mundo pensa que entrar pra carreira pública é a solução para todos os problemas. Ninguém mais pensa em se tornar um grande médico, ou advogado, ou publicitário ou o que quer que seja. O grande negócio é fugir da vida social por um ou dois anos, gastar milhares de reais em livros e palestras pseudo-miraculosas e então, zás: brigar por uma das (poucas) vagas que eventualmente surgem para o funcionarismo público. E o que acontece? As pessoas deixam de fazer o que devem fazer pra fazer o que é melhor para si mesmas aqui e agora. E só. Num primeiro momento isso parece ser o caminho óbvio mesmo, mas sabe o que mais? Até pensar isso já é um reflexo da sociedade imediatista e egoista onde a gente vive.

Onde estão os sonhadores? Onde foi parar aquele espírito que sempre caracterizou a juventude, que era o de projetar alguma coisa a mais para o futuro que não só garantir um salário da maneira como for?

Nunca se venderam tantas palestras e livros sobre concursos públicos quanto hoje em dia. O pior é ver, por exemplo, as pencas de estudantes de direito que nem mesmo cogitam a possibilidade de um dia advogar. Afinal de contas, é a área onde mais acontece isso. Mas não a única. Eu mesmo conheço gente que desistiu das carreiras que estavam seguindo pra largar tudo e partir pra um concurso. E o que é mais grave: as pessoas como eu, que nunca tiveram o funcionarismo público como objetivo, parece que são as erradas nessa história toda. Só que, pasmem, não quero mesmo. Os argumentos contra nós são muitos: instabilidade (que é realmente preocupante), problemas com direitos trabalhistas etc. Mas com isso, se enterra até a possibilidade de alguém conseguir progredir na vida com as próprias pernas, construindo alguma coisa realmente nova. Afinal, quem vai querer tomar a iniciativa quando é tão mais cômodo pegar o produto pronto? Vamos nessa, é só mandar a conta pro Estado. E quem precisar de um profissional qualquer no futuro, que supra a falta dele buscando respostas em enciclopédias. Ou indo embora, infelizmente, para lugares onde a iniciativa privada ainda é uma das grandes impulsionadoras do conhecimento, das descobertas científicas e principal estimuladora dos jovens profissionais.

Que me desculpem aqueles que tentam os concursos com um objetivo realmente nobre. Mas do jeito que as coisas andam, vão faltar cadeiras pra acomodar tantos paletós.


5 comentários:

Anderson disse...

Realmente não aguento mais essa mania de concurso público. Eu quero trabalhar pra mim e não para o Estado ou quem quer que seja. Por isso meus objetivos são totalmente diferentes de fazer concurso e sim tentar com minhas idéias fazer algo que me dê uma vida tranquila e bastante rentável, trabalhando PARA MIM, somente. Parabéns pelo ótimo texto.

El Phodon disse...

Concordo em grande parte com o que você falou.
Só tenho minhas próprias razões pra não gostar de emprego público. Uma delas é que o salário vai se degradando com o tempo. Qq coisinha q tenha q cortar do orçamento, o governo tira dos funcionários públicos (ou deixa de dar). Os FPs até uns anos atrás, tavam achando que iam ganhar aposentadoria integral com isonomia salarial e o escambau; isso acabou duma hora pra outra. Não tô disposto a ficar assim tão sensível às intempéries do comportamento do governo.

Abraços,
El Phodon
http://evesbyte.blogspot.com

Marciel disse...
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Fernanda disse...

Infelizmente, na minha carreira eu sou quase obrigada a tentar a sorte em concursos públicos. Sou veterinária, mas não tenho a menor vocação para cachorreira. Então, tento os concursos que pintam para a minha área. Acabei de fazer o da Polícia Federal e estou esperando o do Ibama.
Tá, confesso que tentei o do Ministério Público, que só exigia 2º grau, e até o da Comissão de Valores Mobiliários, para qualquer nível superior, além do BNDES (esse foi por pouco!) e do Banco do Brasil.
Para a área de pesquisa que pretendo seguir, preciso fazer mestrado, doutorado e talvez até pós-doc. Como viver de bolsas financiadas pelo governo não é tarefa fácil, já que estas são cortadas por qualquer coisinha, vejo-me obrigada a atirar para todos os lados.

Tatiana Cunha disse...

Muito oportuno seu texto. Até porque, tocou na ferida mesmo: sou publicitária.

Montei minha própria empresa, o bicho tá pegando financeiramente e eu pensei em largar tudo e partir para um concurso. Não, claro, sem a forte influência dos meus pais, que não entendem como alguém pode trabalhar sem férias, carteira assinada e vale-transporte.

Já tentei esses moldes. Não deu certo. Eu questionava demais meus superiores.

Estou muito ansiosa com essa situação, mas com medo de tomar o passo errado (isso me faz lembrar aquela frase não sei de quem: "o time estava à beira do precipício, mas tomou a decisão certa, deu um passo à frente"). Às vezes me sinto assim... na beira do precipício. E eu não sei quem está no platô ou quem está lá embaixo, na quebradeira das ondas: minha empresa ou o concurso público... quem está onde? rsrsrsrs

Enquanto isso a vida passa... faltam 4 anos pros 30. Dois anos de formada, sem paciência para fazer pós em qualquer coisa. Queria mesmo aprender a pular de pára-quedas, ou a tecer tapetes, como nossas bisavós.

Mas sabe o que é? É que até pra isso precisa-se de dinheiro. Do concurso público ou da minha empresa? Não sei... mas ainda resta uma fezinha de que a parte segura, o platô atrás de mim, realmente é a minha empresa. Enquanto isso, deixa a vida passar como der.

Parabéns pelo blog.