19 de nov de 2004

:: A Profissao do Futuro ::

Daqui a pouco vai ser pergunta de entrevista de emprego:
- Ok, fulano. Agora me diga: você é filho de quem?

4 anos de faculdade ou mais? Esquece. Carteira de motorista? Não precisa. Como também não precisa mais se preocupar com compra de ingressos pra shows, fila na porta da boate ou restaurante lotado. A profissão do futuro garante livre acesso a praticamente tudo e emprego em qualquer lugar. Essa profissão é ser filho de alguém importante. Ou parente. Coitado de nós, com currículos debaixo do braço, nos achando muito bons por que passamos das primeiras fases da seleção e alcançamos a dinâmica de grupo.

Todo lugar que a gente vai hoje em dia tem alguém querendo se dar bem apoiado no que o pai fez, deixou de fazer ou em quem ele simplesmente é. E, mais bizarro que isso, acabam, de certa forma, incorporando a profissão do tal pai a ponto de ameaçar empregos e posições alheias. Os coitados dos policiais, nas blitzes, que o digam.
Os filhos profissionais não tem o menor medo de que suas atitudes revertam contra os próprios pais. Que atinjam as reputações que eles conquistaram e que, no final das contas, assina embaixo de toda loucura que os rebentos, parentes e agregados inventam.

Outro dia, dentro de um carro prestes a ser parado numa blitz, ouvi a seguinte pérola: “deixa esse guardinha mexer comigo que amanhã ele tá na rua”. O guardinha mexeu. E foi pra rua. Outra história: um amigo, delegado, prendeu uma mulher que dirigia bêbada e bateu de carro. As poucas palavras que ela conseguiu vomitar foram “você sabe cunhada de quem eu sou?” e citou o nome de um desembargador. Acordado no meio da noite com a notícia da prisão dela, o tal desembargador foi heróico: não só mandou deixar a moça presa como ainda passou nela um sermão daqueles, com duração para Fidel Castro nenhum botar defeito. Ou seja, há esperança.

Alguém tem que acordar essa garotada que anda por aí que um dia, o que se há de fazer, os pais acabam. Aí é cada um por si. E, assim, essa nova geração de filhos nem vai poder seguir os passos dos seus pais, já que não vai haver passo algum pra ser seguido nem influência pra ser emprestada.

12 de nov de 2004

:: Messias instantâneo ::

Na terça-feira uma mulher do prédio em frente ao da agência jogou-se pela janela. Era por volta do meio-dia. Caiu ao lado de uma camelô, que vendia balas, por pouco não levando a coitada na carona do seu desespero.

Em segundos, uma multidão já tinha se formado em volta de ambas. Todos perguntavam o que tinha acontecido, e a coitada da vendedora não era capaz de dizer nem o que estava acontecendo ali naquele instante. Logo depois, as primeiras teorias começaram a aparecer. Em instantes, os populares já tinham batizado a suicida, determinado sua idade e engravidado-a do próprio chefe, que teria demitido-a pouco antes do salto. Uma criatividade e agilidade de fazer inveja até a nós, que trabalhamos com publicidade.

O mais impressionante não é a curiosidade das pessoas. Isso é natural. Mas a atração pela morte, a necessidade de ver detalhes, de saber detalhes, é uma coisa visceral. Nem que os detalhes tenham que ser inventados. Afinal, um detalhe inventado agora é uma verdade absoluta horas depois. E num evento como esse, minutos depois.

Em cada pessoa ali, que olhava a menina (disseram que tinha 19 anos), o que se via era, na verdade, um misto de medo e de satisfação. Satisfação sim, por mais bizarro que soe. Afinal de contas, o que cada um pensava era que, por pior que estivesse a sua situação, a daquela garota era agora pior. É o mesmo fator que aumenta e alimenta jornais como “O Povo” e programas como o “Cidade Alerta”. Nada melhor pra aumentar o conforto do lar que a notícia de que, lá fora, o mundo está acabando.

Às seis horas da noite, mais ou menos, levaram o corpo. Varreram a calçada. Tiraram as fitas de isolamento. Pessoas que nunca antes se viram, despedem-se solitárias pra nunca mais se verem de novo. A suicida vira, então, informação privilegiada: quem viu a cena ao vivo, antes de ser mostrada no jornal, avisa aos amigos o que eles vão ver quando ligarem a TV. É um breve momento de destaque pessoal, de parecer diferente e fugir do anonimato que é fazer parte da massa cinza de pessoas que compõem a cidade.

E assim, com sua morte, a moça deu alguma vida a quem presenciou a cena.

4 de nov de 2004

:: Is Renato your friend? ::

Também caí nas graças do Orkut. Ou vice-versa. Graças a ele, encontro mais ainda amigos que já encontro sempre, reencontrei alguns que não via há anos e ainda outros que nunca tinha visto antes. E que, ao bem da verdade, ainda não vi. Mas conheci.

Fora um ou outro aprisionamento virtual, tudo parece funcionar bem. Mas tem uma coisa que incomoda. E o pior é que ela é o ponto de partida individual para o Orkut: o profile. Em outras palavras, a pergunta é: “E aí, Fulano, quais são os ingredientes que o compõem?”

O problema é que ninguém pode ser tão facilmente definido. E ninguém gosta de ser rotulado, ainda que seja por si mesmo. Junto a tudo isso, vem aquela necessidade de aceitação irrevogável que todo ser humano tem. Ainda que seja ser aceito por outras pessoas que não fazem questão de aceitação alguma. O homem é um ser sociável. Aliás, o Orkut se baseia nisso.

Assim sendo, o cursor piscando ameaçador no campo “describe yourself” é, invariavelmente, injusto. Não importa quais forem as letras que ele for abandonando à esquerda, sempre vai ficar a sensação de que poderiam, ou deveriam, ser outras. O que escrever? O que as pessoas querem ler? O que dizer para parecer simpático e agradável ou um louco desvairado, se for o caso?

Fashion. Favorite Cuisines. Humor. São essas as informações que pretendem, no final da equação, dizer quem é quem. E que conseguem gerar o eterno conflito entre o medo de se expor e a vontade de ser popular. Prato cheio para a psicanálise.

A impressão que dá é que todo mundo, mais do que encontrar outras pessoas, está tentando encontrar a si mesmo. Tomara que consigamos.