12 de nov de 2004

:: Messias instantâneo ::

Na terça-feira uma mulher do prédio em frente ao da agência jogou-se pela janela. Era por volta do meio-dia. Caiu ao lado de uma camelô, que vendia balas, por pouco não levando a coitada na carona do seu desespero.

Em segundos, uma multidão já tinha se formado em volta de ambas. Todos perguntavam o que tinha acontecido, e a coitada da vendedora não era capaz de dizer nem o que estava acontecendo ali naquele instante. Logo depois, as primeiras teorias começaram a aparecer. Em instantes, os populares já tinham batizado a suicida, determinado sua idade e engravidado-a do próprio chefe, que teria demitido-a pouco antes do salto. Uma criatividade e agilidade de fazer inveja até a nós, que trabalhamos com publicidade.

O mais impressionante não é a curiosidade das pessoas. Isso é natural. Mas a atração pela morte, a necessidade de ver detalhes, de saber detalhes, é uma coisa visceral. Nem que os detalhes tenham que ser inventados. Afinal, um detalhe inventado agora é uma verdade absoluta horas depois. E num evento como esse, minutos depois.

Em cada pessoa ali, que olhava a menina (disseram que tinha 19 anos), o que se via era, na verdade, um misto de medo e de satisfação. Satisfação sim, por mais bizarro que soe. Afinal de contas, o que cada um pensava era que, por pior que estivesse a sua situação, a daquela garota era agora pior. É o mesmo fator que aumenta e alimenta jornais como “O Povo” e programas como o “Cidade Alerta”. Nada melhor pra aumentar o conforto do lar que a notícia de que, lá fora, o mundo está acabando.

Às seis horas da noite, mais ou menos, levaram o corpo. Varreram a calçada. Tiraram as fitas de isolamento. Pessoas que nunca antes se viram, despedem-se solitárias pra nunca mais se verem de novo. A suicida vira, então, informação privilegiada: quem viu a cena ao vivo, antes de ser mostrada no jornal, avisa aos amigos o que eles vão ver quando ligarem a TV. É um breve momento de destaque pessoal, de parecer diferente e fugir do anonimato que é fazer parte da massa cinza de pessoas que compõem a cidade.

E assim, com sua morte, a moça deu alguma vida a quem presenciou a cena.

Um comentário:

Anônimo disse...

Nunca compreendi, ou aceitei, esse prazer pela desgraça alheia. Coisa boa ninguém corre pra ver.Qual seria a graça de chegar em casa e contar algo que alegrasse o coração?

...rastro...