4 de fev de 2005

:: Alguma pergunta? ::

Uma das coisas que mais me incomoda é ter que responder à mesma pergunta por várias vezes seguidas. Ao mesmo tempo, vejo que o número de dúvidas que todos têm cada vez mais aumenta, em progressão geométrica. E não são dúvidas técnicas, estudantis ou coisa do tipo, mas dúvidas a respeito de coisas que deveriam ser as únicas certezas de cada um de nós: nossos gostos, nossas vontades, nossa personalidade.

Tenho um exemplo: um amigo meu pergunta-me compulsivamente se acho a namorada dele bonita. Ela é. Eu respondo que acho. Sei que pergunta a mesma coisa para outras pessoas, até porque já o vi fazê-lo. Com mais avaliações positivas que negativas, parcialmente saciado, ele invariavelmente conclui: “ela é mesmo, né?”
Até a conclusão é uma pergunta, ainda que retórica.Uma vez rebati a pergunta. Sua própria resposta, apesar de previsível, obviamente não foi veemente como deveria.

Da mesma forma, ouço perguntas que nada mais são do que pedidos de ouvir confirmações de escolhas que as pessoas já fizeram, uma vez que precisam ouvir de outros que foi válido abrir mão daquilo que realmente sonhavam fazer com a própria vida em prol do que é socialmente aceitável, da estabilidade e do status quo. E a miríade de questionamentos vai de empregos a casamentos, de endereços onde morar a grifes, de nomes para os filhos ao restaurante onde almoçar.
Ironicamente, as biografias que lemos contam justamente a vida de pessoas que não se conformaram. Que não se preocuparam com o que eu ou você acharíamos das opções que fizeram. Nossa admiração vai para quem abdicou de uma vida para viver entre os leprosos na Índia, para quem saiu do balcão de uma videolocadora para sacudir a indústria cinematográfica, para quem dormia em uma van e a dirigia por milhares de quilômetros, soterrados em instrumentos, para fazer acontecer uma das bandas mais importantes da história do rock.

É claro que vivemos uma realidade que beira o totalitarismo, ainda que seja difícil enxergar isso em um primeiro momento. Desde que nascemos, toda a nossa vida é direcionada para uma ou outra direção. Mas mantermos nossa autenticidade já é mais que meio caminho andado em direção a fazer alguma diferença. Então, para que não nos transformem em verbetes, precisamos perceber que já temos em nós mesmos as respostas para muitas das nossas perguntas. E, claro, acreditar nelas.
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renatoalt@hotmail.com

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