22 de fev de 2005

:: Eurásia, Lestásia, Brasil ::

Estamos de volta à normalidade. À realidade. Ao ano de 2005, que enfim está liberado para começar, pelo menos até a Semana Santa. Lá, mais uma vez, o freio de mão vai ser puxado e todos os projetos que enfim começaram a andar vão ser lançados de cara no pára-brisas.

O que foram os dias de Carnaval? O que sempre são eles, afinal?
Fico impressionado na transformação que acontece nos dias da Festa da Carne. Pessoas recatadas, muitas vezes tímidas, vestem máscaras invisíveis e permitem-se excessos que durante todos os outros dias do ano criticam naqueles que os cometem, digamos, com mais regularidade. Durante quatro dias (oficialmente, claro) tudo é permitido. E mais que isso, incentivado. A indiferença que a maioria de nós demonstra diante dos mendigos e bêbados que estão todos os dias jogados pelas ruas da cidade transforma-se em algo diferente: passamos a incorporá-los ao cenário da festa, como um folião que de tanto divertir-se viu seu corpo exigir descanso imediato, fosse onde fosse. A mesma pessoa que durante 361 dias do ano nos vê negando um trocado, sob o argumento de que o dinheiro vai ser usado para comprar bebida, agora recebe o dinheiro precisamente para este fim, e ainda sorrimos juntos como velhos amigos.
Enquanto isso, visitantes estrangeiros chegam em massa ao Rio para ver confirmadas todas as suas idéias pré-concebidas (e erradas) a respeito do brasileiro e seu modus vivendi.

Não sou moralista e muito menos pretendo embarcar numa guerra solitária contra algo que jamais vai ser mudado. Mas é desgastante ver o país parar por completo e transferir a importância de cada problema social e pessoal para questões intangíveis. A nota dada para a “Harmonia” torna-se mais importante que o desemprego, e as “Alegorias” mais importantes que a falta de leitos nas emergências dos hospitais. Alguém pode perguntar se não é bom que as pessoas tenham a oportunidade de fugir um pouco à responsabilidade e estresse do dia a dia. Eu responderia que não tenho certeza. Penso que Carnaval é um alucinógeno com quatro dias de duração. No final, a pessoa é devolvida à mesma realidade da qual escapou, com alguns dígitos a menos na conta corrente. Tudo estimulado pelo governo, que não nos supre com o que precisamos, mas ano após ano nos promete um Carnaval muito melhor que o anterior, recheado de novas regras e propostas que começam a desviar nossa atenção do que importa meses antes da festa. E assim o povo vai sendo amansado e domesticado, mantido sob controle. Do início ao fim, todos os humores são manipulados e todas as vontades conduzidas sem que nos apercebamos disso. Afinal, muitas são as ferramentas: notícias, novelas, futebol etc. Para o totalitarismo declarado, basta um passo. Não me interpretem mal. Não sou contra o Carnaval, a diversão ou coisa do tipo. Muito, muitíssimo pelo contrário. Mas sou contra, sim, a maquiagem que é jogada sobre a cidade e os cidadãos durante os dias da festa, desviando sua atenção das coisas que realmente importam. Se continuarmos nesse ritmo, em breve poderemos ver cartazes dizendo “O Grande Irmão zela por ti” pelas janelas... e, pior, estaremos achando que isso de fato acontece.

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