21 de mar de 2005

:: Às apostas ::

O quanto de nós mesmos é domesticado pra que nos tornemos socialmente aceitáveis?

Dizem que sou um cara simpático. Que sou inteligente e tenho facilidade em fazer amizades. Mas quem está sendo simpático e inteligente? Eu mesmo ou a máscara de mim que permito que as outras pessoas vejam?

Me dizem que preciso aprender a jogar. Que me exponho demais. Que meus sentimentos são sempre visíveis a qualquer um, e que se quero me relacionar com alguém preciso aprender a não me expor. Mas a vida que vivo sem dizer quem sou é mesmo a minha ou a que impõem que a mim?

Tenho vontade de declarar meu ódio, dizer meus amores, expor a alma. O que fariam com ela? Quem me julgaria? Aqueles que estão jogando, ou as pessoas por dentro dos jogadores? Penso que, por vontade própria, nos tornamos peões em um tabuleiro onde poucos são aqueles que determinam os movimentos. E se alguém não se sujeita a condição de peão, torna-se um alguém que admiramos. Por que, então, somos peões?

É madrugada e são esses os pensamentos que estão me fazendo virar e revirar na cama antes de pegar no sono. Que me tiraram do torpor para a frente do computador. O que é que nos faz ficar na linha de comportamento pré-definido ao invés de nos fazer viver pela própria conta e vontade? Todos temos monstros dentro de nós, e esses precisam ficar acorrentados para que não nos percamos em nós mesmos. Mas temos sonhos também. O que nos faz prendê-los?

Se amo, quero declarar. Se odeio, pra que fingir? Me canso de ouvir “não ligue pra ela, você não pode demonstrar que a quer, porque ela vai te desprezar”. A sinceridade, hoje, é julgada como fraqueza. E é verdade: somos punidos por agir como nos manda o coração. O conselho de não se expor é de verdadeira amizade. Mas qual a veracidade de um sentimento que não pode ser declarado, pois se for, não será, obrigatoriamente, correspondido?

Me cansa ser humano. Me cansa pensar. Me cansa jogar. A evolução do intelecto nos afasta daquilo que nos torna uma criatura da natureza. Tudo é jogo, tudo tem segundas intenções. Do que vale viver uma vida dissimulada? Por outro lado, do que vale sangrar por dentro quando dos outros o que podemos esperar é dissimulação? De tanto movermo-nos em esquemas, nos perdemos dentro dos nossos próprios movimentos no tabuleiro. Temo que não consigamos voltar ao início. Ou, se conseguirmos, será que saberíamos repetir os acertos e evitar aquilo que foi considerado erro?

Quantas vezes fui criticado por que fiz um telefonema, ou mandei uma mensagem. Agi por impulso. “Impulso”: termo pra tornar aceitável aos outros aquilo que, por definição, você não deveria ter feito. Mas por que não deveria?

Que me amem, que me odeiem. Se não puder ser autêntico comigo mesmo, como ser com os outros? E se não querem que eu seja autêntico e me relacione como sou, do que valem os relacionamentos e o convívio?

Estou cansado. Cansado demais. Talvez falando demais. Talvez pensando demais. Mas o que seria isso? Mais uma justificativa para explicar porquê penso como penso?


9 de mar de 2005

:: Os Três Mosqueteiros ::

Até que ponto pode-se confiar em alguém, crendo que essa pessoa nunca vai lhe virar as costas ou duvidar de uma amizade que, até onde se poderia imaginar, estava à prova de qualquer circunstância?

Há poucos dias descobri que nem os valores que temos como mais certos são de fato plenamente confiáveis. De uma hora para outra, de uma frase para a seguinte, toda uma realidade pode mudar. Tudo depende da intenção de quem fala e do humor de quem ouve. Como dizem, e é o tipo da coisa que a gente só descobre, invariavelmente, da pior forma possível, leva-se uma vida para construir um relacionamento e um minuto para acabar com ele.

Sim, este texto é um desabafo. Eu o começo como alguém que, a princípio, sente dificuldade em voltar a acreditar no ser humano e em sua capacidade sincera de sociabilização. Mas, paradoxalmente, como alguém que sabe que a generalização tem como princípio básico a burrice.

Isso me leva a pensar no que o ser humano é em sua essência. Um ser social, como apregoam alguns, ou um predador até certo ponto inconsciente das próprias atitudes, o que o faz agir da maneira que for preciso para manter-se em sua zona de conforto e alcançar suas metas sem importar-se com os meios para tal?

Mais e mais penso que a razão para a eterna busca por uma felicidade nunca alcançada e para o crescente número de demônios interiores em cada um vem justamente da tentativa impossível de juntar água e óleo: escrúpulo e sucesso. Sucesso, bem entendido, sob o ponto de vista de uma sociedade capitalista. Quanto mais biografias lemos, mais vemos que os grandes líderes, quase todos, tiveram que abrir mão de suas relações interpessoais para atingir seus objetivos; exceto quando essas relações existiam apenas como trampolins de outros interesses. É a “vontade de poder”, como batizou Nietzsche, que se sobrepõe à razão. Na maioria das vezes, também, tais líderes estavam sozinhos quando precisavam de pessoas e não de poder.

Conheço gente que simplesmente não expõe absolutamente qualquer aspecto de suas vidas pessoais. Tinha a tendência a achar que essas pessoas estavam erradas, que não é possível haver amizade quando não há certo grau de cumplicidade. Agora, vejo que isto nada mais é que uma forma de preservar a si mesmo, uma vez que a “vontade de poder” vai falar mais alto quando confrontada com a sinceridade; que a preservação de um mundo pessoal asséptico vai colocar-se acima de uma possível auto-mutilação em favor de outro, seja por orgulho ou por conflito de interesses. Tudo vai depender do momento atual, do humor atual e das posições atuais de cada um presente nessa zona de tensão.

Comecei esse texto sem saber como iria terminá-lo. Sem saber aonde ele me levaria. Como todo desabafo, praticamente tem vida própria. Mas concluo notando que as coisas que mais nos ferem são também aquelas que nos impulsionam a crescer. Às avessas, uma amizade pode nos ensinar isso quando se mostra falha. Por isso, talvez ingenuamente, prefiro permanecer fiel aos princípios que mantenho desde sempre: a de que são amigos que nos tornam a existência tolerável; e que eles de fato existem.