9 de mar de 2005

:: Os Três Mosqueteiros ::

Até que ponto pode-se confiar em alguém, crendo que essa pessoa nunca vai lhe virar as costas ou duvidar de uma amizade que, até onde se poderia imaginar, estava à prova de qualquer circunstância?

Há poucos dias descobri que nem os valores que temos como mais certos são de fato plenamente confiáveis. De uma hora para outra, de uma frase para a seguinte, toda uma realidade pode mudar. Tudo depende da intenção de quem fala e do humor de quem ouve. Como dizem, e é o tipo da coisa que a gente só descobre, invariavelmente, da pior forma possível, leva-se uma vida para construir um relacionamento e um minuto para acabar com ele.

Sim, este texto é um desabafo. Eu o começo como alguém que, a princípio, sente dificuldade em voltar a acreditar no ser humano e em sua capacidade sincera de sociabilização. Mas, paradoxalmente, como alguém que sabe que a generalização tem como princípio básico a burrice.

Isso me leva a pensar no que o ser humano é em sua essência. Um ser social, como apregoam alguns, ou um predador até certo ponto inconsciente das próprias atitudes, o que o faz agir da maneira que for preciso para manter-se em sua zona de conforto e alcançar suas metas sem importar-se com os meios para tal?

Mais e mais penso que a razão para a eterna busca por uma felicidade nunca alcançada e para o crescente número de demônios interiores em cada um vem justamente da tentativa impossível de juntar água e óleo: escrúpulo e sucesso. Sucesso, bem entendido, sob o ponto de vista de uma sociedade capitalista. Quanto mais biografias lemos, mais vemos que os grandes líderes, quase todos, tiveram que abrir mão de suas relações interpessoais para atingir seus objetivos; exceto quando essas relações existiam apenas como trampolins de outros interesses. É a “vontade de poder”, como batizou Nietzsche, que se sobrepõe à razão. Na maioria das vezes, também, tais líderes estavam sozinhos quando precisavam de pessoas e não de poder.

Conheço gente que simplesmente não expõe absolutamente qualquer aspecto de suas vidas pessoais. Tinha a tendência a achar que essas pessoas estavam erradas, que não é possível haver amizade quando não há certo grau de cumplicidade. Agora, vejo que isto nada mais é que uma forma de preservar a si mesmo, uma vez que a “vontade de poder” vai falar mais alto quando confrontada com a sinceridade; que a preservação de um mundo pessoal asséptico vai colocar-se acima de uma possível auto-mutilação em favor de outro, seja por orgulho ou por conflito de interesses. Tudo vai depender do momento atual, do humor atual e das posições atuais de cada um presente nessa zona de tensão.

Comecei esse texto sem saber como iria terminá-lo. Sem saber aonde ele me levaria. Como todo desabafo, praticamente tem vida própria. Mas concluo notando que as coisas que mais nos ferem são também aquelas que nos impulsionam a crescer. Às avessas, uma amizade pode nos ensinar isso quando se mostra falha. Por isso, talvez ingenuamente, prefiro permanecer fiel aos princípios que mantenho desde sempre: a de que são amigos que nos tornam a existência tolerável; e que eles de fato existem.

Um comentário:

Anônimo disse...

Que bom encontrar seu blog nesse momento. Se eu fosse escrever um post, ou um desabafo, como você mesmo disse que foi o seu, e seria também o meu, certamente as palavras não seriam muito diferentes das suas. Creio que amigos são essenciais. Para mim, são. Mas aprendi a me guardar, não revelando os sentimentos mais íntimos, as vontades mais íntimas, as idéias, objetivos, e quaisquer coisas que possam fazer com que me arrependa posteriormente de ter revelado, caso seja "traída" por uma amizade. Já aconteceu na minha vida, já me desiludi com amigos a quem tinha grande apego, e em quem confiava demais. O pior, para mim, é que, quando finalmente passo a confiar a alguém, e olha que isso demora a acontecer, "abro meu coração". A pessoa passa a conhecer seus medos, suas fraquezas, e de um momento a outro, os usa contra você. Cruel demais, não?!
Também me surpreendo até onde pode levar a vontade do sucesso, e o que uma pessoa é capaz de fazer para alcançar o que deseja. Atropelhar pessoas, ir contra ideais que a própria diz ter... isso é tudo muito absurdo para mim, mas infelizmente passei por isso, e não foi uma única vez.
Muito bom ler tudo o que você escreveu. Me fez perceber algumas coisas e saber que não sou a única que se revolta com esse tipo de comportamento. O mundo não é todo podre como nos querem fazer crer, não é mesmo? Continuo acreditando em amizades sinceras.
Uma boa noite, e um ótimo fim-de-semana.