13 de abr de 2005

:: Knock knock ::

Ridículo, mas são exatamente 3:33 da manhã. Ninguém online. Com certeza, gente com coisa melhor pra fazer do que eu, que fico aqui constatando que são, agora, 3:34 da manhã e que não tem ninguém online.

A solidão nos nossos dias assume tons diferentes. A solidão agora não é mais regional, caseira. Antes a gente ficava se sentindo sozinho quando os parentes não estavam em casa. Com um pouco mais de idade, quando os amigos não davam notícias. Agora, num mundo globalizado, ficamos sozinhos em escala mundial. Imagine, dentre tantos povos e fusos que existem, não ter ninguém com quem falar quando o computador teoricamente joga por terra todas as fronteiras políticas e sociais que existem? Ou ainda pior do que isso, saber que existe alguém em potencial com quem você se identifica perfeitamente, a um clique de uma conversa, mas por algum motivo não tem o endereço de msn, icq ou de seja lá qual for a ferramenta de comunicação que se use. Ou a barreira da língua, que não é mais uma barreira real graças a tantos emoticons que temos disponíveis. Será que entramos numa era de solidão, também, globalizada?

Li a respeito de pessoas que nem saem mais dos quartos, porque podem conseguir pela internet tudo o que precisam, ou julgam precisar. Menos contato interpessoal. Ou estamos desenvolvendo um novo protótipo de ser humano, que não precisa de contato social pra se desenvolver plenamente? È fato que as pessoas podem ser muito mais sinceras via NET, mas engraçado como se mostram muito mais mentirosas ao mesmo tempo. O nerd que nunca beijou na boca pode se identificar como o Don Juan, a menina que nunca foi convidada a dançar em uma festa americana pode travestir-se de Carmem Electra e parecer inatingível para os pobres Don Juans, já citados, agora aflitos. E no final, nenhuma das fantasias se torna realidade, e nenhuma das pretensões se torna real. Solidões que nunca se encontram jamais podem se anular. E qual solidão não busca senão a própria anulação?

Por que é que tudo tem que parecer tão complexo, muitas vezes? As coisas não podem, simplesmente, ser?
Ouço Sade e bebo vinho agora. São as companhias que, no momento, se dispuseram a estar comigo enquanto digito essas palavras que, ao bem da verdade, estão saindo mais por vontade própria do que pela minha. Mas se em mim algo quer se mostrar ao mundo, quem sou eu para impedir? Que se mostre, e que por isso se faça julgar. A mim, resta a posição paterna, de reconhecer e administrar resultados, sem culpar os rebentos.

E resta a esperança que uma porta de quarto se destranque e descubra o mundo.

11 de abr de 2005

:: Candyman ::

Minhas vísceras querem sair de novo. Estão batendo nos dentes, na consciência, voltando quentes para o estômago e pra alma. Às vezes quero dizer muito mais do que realmente falo, temendo o que possa acontecer a partir daí; não tanto por causa dos outros, mas sim por minha própria causa. Não tenho bem certeza se depois de receberem alforria, conseguiria novamente domesticar os pensamentos. Afinal, a palavra proferida é uma das três coisas que não voltam atrás.

Me assusta por isso quando não me encontro nas palavras que usam para falar de mim. Será que são todos tão cegos pra não enxergar através do que exponho no rosto? Me desespero para me esconder por trás de uma máscara o mais sólida possível, ao mesmo tempo em que imploro para que alguém a tire de mim e se depare assustado – ou não - com quem eu realmente sou. Talvez, a partir daí, esse alguém possa esclarecer essa dúvida que também me atormenta há 28 anos.

Será que todos são tão intoleráveis a si próprios quanto muitas vezes pareço a mim? Nada de autocomiseração, não é o caso. É a hipocrisia. Sou um hipócrita, e que atire a primeira pedra aquele que é plenamente condizente em vida com o que apregoa – seja o que for. Nem roqueiros, contra tudo e todos, podem se dar ao luxo de fugir dessa maldita palavra – precisam da aceitação que tanto pretendem mostrar que não. E, aliás, já não é a rebeldia um pré-requisito exigido pelos fãs àqueles que almejam decorar a porta dos seus armários?

O que faz o cidadão de bem quando chega em casa tarde da noite e já não há mais nada além da já citada consciência – e essa já cauterizada pela reincidência – para tentar lhe chamar à razão? O que se esconde nos recônditos da mente, no quartinho escuro e sem luzes ao qual ninguém tem acesso, nem ao menos sabe que existe, mas que todo dia recebe sua visita? É o pecado de estimação, acariciado e alimentado, eternamente renegado e diariamente acolhido e embalado. O que as luzes revelariam no porão da alma de cada um? O freio social se desprende para muitos, mas somos todos monstros diariamente controlados pelos remédios tarja preta que patrões, carência e amantes nos impõem - e que por conseqüência impomos a nós mesmos. A fome visceral, o ópio do poder e do ter, aquele pequeno lampejo de pensamento que foge ao controle mas que diz que, afinal de contas, uma atitude um pouco mais egoísta seria admissível num mundo onde o que importa é o aqui e o agora, mais para mostrar-se o que tem do que para possuí-lo de fato. E tudo isso com a certeza de que ao redor do leito de morte o que vamos querer não são MBAs e quadros com gráfico de desempenho. Vivemos contra nossa natureza, e perdemos de vista o que nossa natureza de fato é.

Não fique muito tempo em frente ao espelho, ou ele pode mostrar mais do que o que você quer ver.