3 de mai de 2005

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“Rapaz, por favor, desce daí.”
“Por que?”
“Porque você não pode ficar aí.”

Apesar de educado, o segurança falou algo que em sua essência deveria ser absurda. Eu estava proibido de ficar em pé em um parapeito. Por que? Porque eu não podia ficar ali. E não estava fazendo nada. Estava apenas em pé, ohando o horizonte, mas olhar o horizonte, em nossos dias, é proibido. É proibido olhar além do que nos permitem ver, e quem ousa fazê-lo é imediatamente taxado de rebelde, louco, imaturo ou coisa que o valha. Não é adequado para viver no sistema. E o que é esse sistema?

Soube que um dos critérios usados por entrevistadores para flagrar candidatos com dificuldade de concentração é fazer a entrevista em uma sala com vista exuberante, como, por exemplo, o Pão-de-Açúcar. Ou então fazer aquela secretária escassamente vestida irromper sala adentro, pedindo mil desculpas, com algum recado urgente. Tudo para ver se o pobre candidato se desconcentra. Ai dele se deixar seus olhos e mente se perderem no céu do Rio. Ai dele, mais ainda, se deixar sua imaginação tirar o que resta da roupa da secretária. O currículo vai pra gaveta sem chance de condicional. E assim, para alimentar executivos, matamos sonhadores. Recheamos cada empresa com criaturas assépticas, assexuadas, que têm no chopp às seis da noite o ápice do seu dia. Pessoas que chegam em casa soterradas de briefings e processos, e que acham que sua prioridade na vida é combater essas pilhas de papel que jamais podem ser de fato extintas. São os Sísifos modernos.

Sobreviver é preciso. Mas não se pode sacrificar a alma nesse processo. No final, quando todos os formulários estiverem preenchidos, todos os processos despachados, todos os briefings solucionados, o que vai restar? Restarão amigos ou colegas de trabalho? O céu é muito maior do que o que se vê por uma janela de avião.

O que é mais curioso é que a grande maioria das pessoas que conheço escolhe imagens de lugares paradisíacos para enfeitar seu desktop ou usar como proteção de tela. Inclusive os tais executivos, que também já foram, um dia, sonhadores.