29 de jun de 2005

:: Portas e sonhos ::

Às vezes tenho a impressão de que estou vivendo um sonho. Não no sentido belo e poético da frase, mas no sentido mais intangível da coisa.

Nada parece verdadeiro. As pessoas passam etéreas, os prédios parecem não ser mais do que cenografia. Tenho a impressão de que se entrasse pela porta de um deles, que seja completamente improvável para mim – como, por exemplo, o prédio do Departamento de Esgoto (se é que existe um prédio assim) – pegaria o Grande Jogador, olhando de cima do tabuleiro, completamente desprevenido e flagraria o nada... o vazio. Atrás da porta, apenas uma armação de madeira para sustentar a fachada.

É difícil imaginar que cada um dos rostos que cruzam por mim nas ruas tem uma história; um nome, um sobrenome e inúmeros dramas. Que não são meros figurantes numa história onde sou eu o protagonista; que as pessoas que interagem comigo não são, da mesma forma, atores coadjuvantes de um enredo que escreve-se dia a dia.

Tudo parece envolto em neblina, fazendo que me sinta um Neo ou um Truman. Um experimento. Parece que as coisas são o que sempre foram, por mais que mudem... como em "Cidade das Sombras", onde cada novo cenário montado para compor o dia seguinte das pessoas da cidade-experimento representasse o que, de fato, eles sempre foram. E, por consequência, o que elas também sempre foram. Como, também, na história "Um Sonho de Mil Gatos": "Os gatos sonharam o mundo como ele sempre foi."

A irrealidade da vida parece mais palpável do que é possível ver, sentir e tocar. Um sonho do qual não se pode acordar. A não ser que, como nos próprios, ao sonhar com a própria morte ela de fato se mostre a vida.


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Um comentário:

Cris* disse...

Eu já sinto diferente. Às vezes parece que estou assistindo a um espetáculo do qual não faço parte. Eu observo tuo ao redor. Sou mera expectadora. Observo cada um que passa por mim, observo o que fazem, observo reações. Me encanto com cada situação que vejo. Consigo entender que cada um ali tem a sua vida, com seus problemas e suas alegrias. E nesse momento percebo que sou apenas um pedacinho nesse mundo de 'vidas'.

Mas vejo, também, assim como você, alguma 'irrealidade'. Pelo menos na minha vida, nesse momento. Não que esteja ruim, mas parece que de repente perceberei que estou num filme ou não sei... como um Truman mesmo. Até que não seria má idéia...

bj*