2 de jun de 2005

:: Reset ::

Estou cansado do jogo.

Já são tantas as identidades que preciso assumir que talvez não consiga mais identificar a minha própria. Auto-preservação e mentira vivem em simbiose: o sorriso que se mostra no rosto é parte da maquiagem, enquanto o pranto na alma segue silencioso.

Se perguntam “como vai”, “ótimo”. A resposta sincera? “Mal, péssimo, fui descartado.” Mas porque a resposta do jogo? Porque a sinceridade não é valorizada. Não faz as coisas acontecerem. Sentimentos são fraqueza, numa época em que todos querem expor os seus mas não aceitam quem o faz. E o ciclo que se cria é de tortura absoluta: quem começou a se expor não consegue mais refrear o impulso, enquanto quem ouve fecha-se para não correr o mesmo risco. Na sinceridade da resposta de um jogador, “nada aconteceu, as coisas simplesmente são assim.”

Não importa como está seu espírito, o expediente é o mesmo. As doenças da alma não permitem a ausência no trabalho, por mais que o trabalho não possa ser feito nas condições em que se está. Não há licença médica para a tristeza, embora seja muito mais nociva e contagiosa que tantas das doenças que nos deixam na cama.

Quando algo novo acontece, nada de demonstrar felicidade. O jogo não permite. Um deslize, um olhar mais acentuado no momento errado, e você perdeu sua chance de avançar para a fase seguinte. Não adianta tentar repetir estratégias: cada pessoa é um novo tabuleiro.

Lancem os dados. E que vença... o melhor?



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4 comentários:

Anônimo disse...

Uau! Adoro seu blog. Adoro a maneira como você escreve. E, cada vez que passo por aqui, encontro em suas palavras quase que uma tradução do que sinto, do que sou.
Auto-preservação e sinceridade nem sempre podem estar juntas. Se alguém lhe pergunta como está, como está sua vida, não se sabe se a pessoa está mesmo interessada ou se é apenas uma perguntinha cordial. E se percebemos um grande interesse na resposta, por parte dessa pessoa, uma ruga aparece na testa: será que posso/devo ser sincero, dizer que não estou bem e explicar cada um de meus problemas? Dilema.
Trecho de um poema de Florbela Espanca ("O teu segredo"):
O mundo diz-te alegre porque o riso
Desabrocha em tua boca, docemente
Como uma flor de luz! Meigo sorriso
Que na tua boca poisa alegremente!

Desculpe, não lembro o restante do poema, mas vale uma busca.
Não podemos ser sinceros o tempo todo, e, ao mesmo tempo, certa culpa de não ser verdadeiro. Máscaras protetoras, talvez. Mas tenho que confessar que há, dentro de mim, o desejo de encontrar alguém, algum dia de minha vida, em quem eu possa confiar, sem receios, para poder finalmente me fazer conhecer, dizer tudo o que há guardado dentro de mim. Ou encontrar alguém que, só de me olhar, sabe o que sinto, alguém em quem minhas máscaras não tenham efeito algum.
Até mais (ou até seu próximo post.) ;)

Gabby disse...

Rê! Caramba, você escreve MUITO, MUITO bem, amigo. Tô fuçando o seu blog (mas infelizmente o tempo tá curto ¬¬), e cara, eu sou sua fã, definitivamente. Te adoro um tanto, viu? E isso é sério. Beijos!

PS.: Só uma coisa... Quer dizer que somos simples peças de tabuleiro? Você sabe do que eu tô falando.

Carlinha 21 disse...

Oi! Conheci o blog através do Kibe Loco. Muito maneiro. Voltarei sempre.

Anônimo disse...

Parabéns gostei muito do seu blog. O jeito que você escreve é muito intrigante e verdadeiro. Especial e tocante. Não sei como descrever o que eu sinto ao le-los é uma realidade pessoal. Pois é esse "jogo" é estranho, cada fase é um misterio, e você só tem uma chance, sem codigos, sem truques sem auxilio...
"Enquanto houver sol ainda havera..."