15 de jun de 2005

:: Êxodo ::

Ninguém entendeu direito por que Augusto resolveu fazer o vestibular para uma universidade em São Paulo quando ali mesmo em Minas tinha o curso que ele queria. “Preciso mudar de ares”, dizia, “ganhar um pouco de independência”. Ainda assim a família relutou um pouco, mas não teve solução a não ser se conformar com a idéia.

Agora, passado o impacto da despedida, estava lá ele saindo do ônibus e botando o pé no asfalto da cidade. Tirou um papelzinho amassado do bolso, com o endereço de uma tia que nem lembrava quando vira pela última vez, mas que estava esperando para abrigá-lo durante todo o curso. Se tudo corresse bem, seriam uns quatro anos.

Encontrou a casa sem muita dificuldade, mas o constrangimento em ver a tia depois de tanto tempo, já na condição de quem vem para ficar, foi grande. Os olhos pesavam de sono. Mesmo assim, para tentar quebrar o gelo, ele ficou consersando um par de horas sobre tudo e todos. Quando enfim conseguiu deitar, o cansaço era tanto que só percebeu que tinha dormido quando acordou com o sol batendo na cara. Banho, roupa, café... e rumo ao primeiro dia de aula.

A universidade realmente parecia ótima. Depois da Aula Magna, Augusto já estava enturmado com alguns calouros, que por sua vez não estavam enturmados com mais ninguém. Presas fáceis para os veteranos, que cercaram todos.

Bem humorado, Augusto nem pensou em fugir para escapar do trote. Riu quando pintaram seu rosto, tiraram seus sapatos e a camisa, escreveram coisas que até hoje não sabe quais em suas costas e lhe deram a tarefa de conseguir não-sei-quantos reais até o final da tarde, para a choppada da galera. Se conseguisse, talvez – só talvez – conseguisse suas coisas de volta. Com uma garrafa cortada em punho, lá vai ele mendigar pelas ruas paulistas. Rapaz extrovertido, juntou simpatia e amigos nas redondezas.

Chegou o final do dia e a hora de levar a féria. Conseguiu o dinheiro todo (com uma ajuda do próprio bolso, mas ninguém precisava saber) e colocou sorrisos nos rostos dos veteranos. Quando o viram, tarefa cumprida e nem um pio de reclamação, convidaram para sair com eles à noite. Foi. Bebeu, enlouqueceu, e como qualquer contravenção é caminho para a fama, virou estrela do campus da noite para o dia. Literalmente.

Com isso, já parecia o aluno mais antigo da universidade no dia seguinte. Todo mundo vinha falar, dar batidinhas no seu ombro ou coisa que o valha. Bom ser popular.

Essa popularidade toda acabou colocando Augusto como representante de turma em votação unânime. Até os professores gostaram, o consideravam um rapaz “dinâmico e inteligente”. A única pessoa que parecia ter visto nele algum sinal de ameaça, por incrível que pareça, foi o reitor: de vez em quando dava uma alfinetada no comportamento (que não tinha nada demais) do rapaz.

Aí aconteceu. Começou o papo de privatização do ensino público. Sem saber direito como, Augusto de repente se viu como um dos líderes do movimento estudantil. Lembrava de terem vindo perguntar o que ele achava de privatizarem as faculdades, e de ter dito “errado”. Quando se deu conta, tinha enfiado uma camiseta “Não à Privatização” pela sua camisa, lambuzado sua cara (outra vez) de tinta e colocado um microfone em sua mão. Como foi parar lá em cima daquele trio elétrico, nem arriscou lembrar. Embaixo, olhos pidonhos tentavam dissecar seu cérebro. Meio sem saber o que falar, tentou entrar no clima dizendo o que pensava...

- “A faculdade é pública!”
- “Éééééééé!!!” – Gritou o coro.

Uma resposta tão empolgada da multidão fez Augusto dar uma olhadinha pra trás pra ver se toda aquela reação tinha sido mesmo por causa do que disse. Tinha. Acabou se empolgando.

- “ É um direito nosso!” – continuou – “Não vamos deixar privatizar! A faculdade é pública, não é privada!”

Pronto, era só isso que todos precisavam. Um jargão.

- “Faculdade...não paga...não vai virar privada! Faculdade...não paga...não vai virar privada!” – catarse!

Assim foi, por algumas horas. Só que a polícia, como não poderia deixar de ser, deu as caras. Naquele tipo de atitude que se toma no calor do momento, um estudante empurrou um policial. Aí não teve jeito, juntou um batalhão inteiro em cima do rapaz, o que chamou um batalhão inteiro de estudantes para defendê-lo. Caos total. Augusto, de cima do carro, tentava de todo jeito acalmar os ânimos. Mas, à essas alturas, quem estava ouvindo alguma coisa?

- “Calma, gente! Calma, gente! Cal...” – e foi interrompido quando um dos policiais tirou o fio do microfone e mandou alguns dos seus colegas tirarem o desordeiro de lá de cima.

Na delegacia, tomou um belo chá de cadeira. O delegado achou melhor não prender o rapaz pra não ter que ficar se explicando pra nenhum “conselho de pais e mestres” e ouvindo discursos sobre “liberdade de expressão”. No final das contas, nem precisou. Apesar de ser elevado à condição de “herói nacional” pelos alunos da universidade no dia seguinte, foi gentilmente convidado a se retirar da instituição pelo reitor – que, como já disse, não o via com bons olhos desde o início.
Despediu-se da tia que mal teve tempo de conhecer de novo, arrumou suas coisas e voltou pra Minas. Afinal, lá tem o curso que ele queria desde o início.


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