29 de jul de 2005

:: Fast-Food ::

Vejo pessoas irreconhecíveis em qualquer lugar onde vou à noite. Pessoas irreconhecíveis a si próprias. Sob luzes negras, imersas em batidas musicais hipnotizantes, em nome de uma diversão vazia e pueril; de esvaziar a cabeça do que lhe enfiaram durante a semana e sob o pretexto de tirar das roupas o cheiro de escritório. Pessoas que trocam olhares pela simples necessidade da satisfação fisiológica do desejo. Quem não busca isso, quem pretende oferecer mais do que isso, é um estranho nesse contexto. Ou mesmo para a vida.

Resolver. Essa é a palavra de ordem, não importa qual seja a qualidade dessa resolução. Para que empreender, se há concursos públicos? Para que conquistar, se há o sexo fácil? Para que lutar, se em algum momento alguém oferece? É a modernidade criando um ser humano pasteurizado e inexpressivo; Que faz uso de soluções que de fato o são para um problema pontual, mas que geram um ciclo interminável de carências e frustrações.

Há tantos que estão prontos a dizer que o certo é isso mesmo. Tantos que mostram em sua casca o quanto alguém pode ser bem-sucedido, apoiados pela impossibilidade de que lhe enxerguem a alma.

Mas não se pode ouvir vozes demais sem que a sua própria desvaneça.


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27 de jul de 2005

:: Status: offline ::

Sou melhor com a palavra escrita do que com a palavra falada.

O que me sinto a vontade para dizer pelas letras de fósforo, não sinto no cara a cara.

Vejo fugir das mãos as oportunidades que crio diante dos olhos.
É como encontrar o padre após a sinceridade do confessionário; o pavor da conversa de elevador e do “adorei te conhecer, boa noite.”

Às vezes acho que é melhor manter a imagem protegida pelo logoff.



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23 de jul de 2005

:: Troca ::

Estou cansado de tentar ser os outros.
“Cara, se eu fosse você faria isso.”
Você não é.
Por que incomoda, então, se não faço?

A impressão que às vezes tenho é a de que as outras pessoas conseguem sempre tirar o máximo proveito de qualquer situação ou circunstância por mais disparatadas que sejam suas atitudes, sob meu ponto de vista. Coisas que não me ocorrem na hora, e que dificilmente faria mesmo que ocorressem, são triviais para elas e parecem garantir sempre um retorno favorável. As mulheres mais espetaculares, as oportunidades mais imperdíveis e todos os bilhetes premiados parecem reservados sempre a esses outros; enquanto isso, crescem em progressão geométrica os perfis encabeçados pela combinação “odeio falsidade e hipocrisia”.

“Rapaz, liga e desmarca.”
Eu não sou assim. Não sou isso. Quiçá nem mesmo meus próprios conselheiros. Mas essas são as regras impressas na tampa da caixa. Estar adaptado à vida é isso?
Difícil me imaginar vencendo quando nem ao menos quero jogar. Não gosto de fingir sentir o que não sinto, de não expressar o que penso, a fim de me adequar.

É engraçado que no final o aprisionado por tudo isso seja eu. Os outros são os livres, são os que fazem o que querem.
Que façamos o que queremos é o que todos dizem esperar de nós. Mas se lhe mandam ser livre e você obedece, o é de fato?


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18 de jul de 2005

:: Receita ::

Não pode ser só isso.

Acordar, fazer um exercício, tomar banho e trabalhar. Voltar pra casa, dormir e recomeçar.

Nenhuma história de vida que possa ser narrada com menos de dez verbos me parece valer a pena.

Ao mesmo tempo, quanto pode ser feito para mudar esse modus vivendi? Por isso vemos pessoas que enlouquecem, desistem do sistema, e são por ele taxados de loucos simplesmente porque não se encaixam mais na corrente produtiva das coisas.

E por quê?

Interpretam ser produtivo como ganhar dinheiro pra si ou outrem. Não é. Que o digam tantos artistas, que apenas depois de suas mortes passaram a, aí sim, enriquecer seus descobridores. Foram considerados, na maioria das vezes, inúteis em seus tempos. Hoje são responsáveis por alimentar nossa imaginação.

Minha meta é ser produtivo. E então, o que vier é lucro.



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14 de jul de 2005

:: Devoto ::

ABCDEFGHIJLMNOPQRSTUVXZ

Estão todas aí.

Tudo em que se baseia a vida, todas as aspirações, amores e descobertas.

Como um cadeado de código, esperam pacientemente por quem as ordene e abra segredos da alma, da ciência e do futuro. Esperam silenciosas, desde que libertaram-se das paredes da arte rupestre para definirem sozinhas as cores, formatos, cheiros e dores de todas as histórias. Para mostrar distâncias que jamais poderão ser percorridas, explicar o que se vê ou ainda para o extravasar de quem vê mais do que consegue explicar.

O que há nos dedos que honram o papel? Nos dedos que cumprem ordens, no final de uma cadeia de tensão, suor, olhos fechados, garganta seca e taquicardia. Ou ainda de leveza irreal, etérea, incorpórea. Nunca, porém, de indiferença.

As palavras escolhem aqueles que as usam. Que as criam. Como a mulher desejada, que escolhe o homem que quer, mas que tem malícia o suficiente para deixá-lo crer que foi ele quem a escolheu. Não se entregam a quem as vê com desdém, que não as buscam, que não folheiam as páginas de seus santuários – os livros.

Não espere inspiração das musas se não as reconhece. Não espere as bênçãos das palavras se não as pede em seus templos.



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13 de jul de 2005

:: Logotipo ::

Conheço mais sentimentos do que conheço palavras. Conheço mais as pessoas do que a mim. Entrego mais do que querem, espero menos do que dão, e mesmo assim vejo a cobrança de um alto preço.

Vejo outros definindo o que sou, enquanto ausentam-se de si mesmos, mas não me encontro em suas afirmações.

Nenhum lugar é mais solitário que a multidão, com seus sorrisos e gargalhadas que cruzam o céu, inatingíveis para aqueles que mais os querem.



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11 de jul de 2005

:: GPS ::

Quando você procura alguém,
começa por onde?
Estive onde sempre vou.
Falei com quem sempre falo.
Conferi minha agenda
e anotei meus passos.
Mas ainda não me encontrei.

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5 de jul de 2005

:: Figa ::

Hoje, como em todos os dias, peguei a barca Niterói – Praça XV. Mas, pela primeira vez, vi que poderia estar correndo um perigo terrível.

Atentei para isso quando a pessoa que sentou ao meu lado – uma mulher com seus cinquenta e tantos anos – se benzeu assim que acomodou-se. Ou assim que me viu. Seja como for, acionou os santos disponíveis para protegê-la de qualquer eventualidade provocada pela barca ou por mim - à essas alturas me sentindo um psicopata.

Pensei sobre quais seriam as coisas das quais poderíamos ser protegidos durante os 25 minutos boiando sobre a Baía. Talvez Herman Melville tenha deixado alguma brecha em sua história e Moby Dick apareceria para destroçar a pobre barca Itaipú, como se fosse a versão brasileira do baleeiro Essex. Ou uma lula gigante, fugida das Vinte Mil Léguas Submarinas, poderia querer exercitar seus tentáculos na madeira.

Nada aconteceu. Ghegamos. A mulher se levantou e saiu.

Notei que benzeu-se para fazer a travessia mas não o fez ao descer na Praça XV. Talvez ache que a terra firme, por ser onde andamos sobre nossos próprios pés, seja naturalmente mais segura: é onde temos controle.

Mas se confiamos em nós mesmos quando podemos “andar pelas próprias pernas” é sinal de que subordinamos qualquer outra força à nossa. A fé perde seu propósito e torna-se não mais que um hábito ou superstição, como evitar passar sob uma escada. Somos absorvidos pelos afazeres do dia a dia e mantemos no cantinho da mente a velha idéia de que as coisas ruins só acontecem com os outros. Então, quando nos tornamos “os outros” de alguém, ficamos revoltados e nos perguntando “por quê”, como se fôssemos as criaturas mais injustiçadas do mundo. O que esperar, quando a fé e a confiança nela não são mais que um simbolismo?

Melhor colocarmos as coisas nos seus devidos lugares. Até porque ter qualquer superstição dá um azar danado.



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1 de jul de 2005

:: Ouvidos e Psicotrópicos ::

Há pessoas que parecem não entender que o excesso de alegria, nos momentos errados, pode ser pior do que ser xingado. Como, por exemplo, quando você acabou de levar um fora, quer ficar em casa com a cara enfiada na cama vendo um DVD da pior qualidade, e insistem em te arrastar para uma festa a qual você não iria nem se estivesse bem. Afinal de contas, você precisa se animar!

Ficar junto a muita gente, nessas horas, é como estar num fogo cruzado de frases feitas: “Há males que vêm pra bem”. “Foi ela quem saiu perdendo”. “Você vai ver que foi melhor assim”. O pior é ficar com fama de antipático ou ser acusado de estar agindo errado simplesmente porque não quer fazer nada esfuziante demais: “ah, cara, você vai ficar assim por causa disso?” Experimente dizer que sim e pronto: além de estar na fossa, você passa a ser culpado por estar nela.

É mais fácil respeitar a alegria que a dor. A alegria, ao contrário da dor, não espera compreensão. Apenas cumplicidade. A dor exige respeito e, às vezes, reverência. Por isso é muito mais fácil ter camaradas do que amigos. Uns são rêmoras. Outros, cúmplices.

Sejamos mais parceiros e menos Prozac.



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