31 de ago de 2005

:: Reflexo ::

Conheço pessoas que têm medo de si mesmas. Medo de descobrir quem de fato são, ou poderiam ser, uma vez despidas de todas as circunstâncias que, como sacos de areia, impedem confortavelmente qualquer vôo mais alto. Têm medo das cobranças que poderiam sofrer, das exigências, uma vez que nada as atrapalhe e assim acabem os argumentos para justificar um desempenho aquém do esperado.

Nesses argumentos estão os filhos e sua demanda de atenção. Ou pais. Ou a infiltração que o vizinho do 301 não conserta nunca e que, por isso, rouba toda a sua atenção e entrega ao encanador que terá ou não sido chamado para resolver o problema.

Resolvidas todas as coisas, outras esperam para vir. Afinal, problemas todo mundo tem. A grande saída para manter-se no conforto da mediocridade é projetar em tudo o que orbita à nossa volta a responsabilidade por aquilo que não nos permitimos ser – ou descobrir que somos. Acabados os argumentos, resta diante de nós apenas o espelho e a pergunta: “e agora, o que vai?”

É o medo de não ser tão bom quanto se pensava. Enquanto houver sacos de areia, há conforto. “Como posso pensar nisso, se há tanto mais acontecendo?”


- É isso, rapaz. É este quem você é. Satisfeito? – diz o espelho.
- Não.
- Quer mudar?
- Sim.
- Quando?
- Assim que resolver isso aqui, que lembrei agora.

As trincheiras nos deixam seguros. Mas a batalha acontece fora delas.


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29 de ago de 2005

:: Solstício ::

De quantos sonhos pode alguém despertar até que a realidade enfim se mostre?

O quanto se pode esperar que a sorte mude, até que as oportunidades não mais apareçam?

Quanto de covardia se esconde por trás de cada negativa, quando à espera que algo aconteça?

Quanto vale esperar pelo intangível, enquanto fechamos os olhos para tudo o que diante deles se mostra tão claro?

Qual a medida da sensatez, e ainda qual a da estultícia, quando se espera um pouco e ainda um pouco mais até a próxima chance... ou por um novo começo?

Todo pôr-do-sol abençôa a ousadia e leva consigo a consciência, acusadora do que sabemos ter deixado escapar: “não era pra ser”, “talvez outra hora”.

Que não me ouçam pelo que nunca tive a dizer. Que não esperem o que não sei ofertar.

Das entranhas da estranheza, vem à luz o incerto e eterno desconhecimento do que se poderia ser.


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25 de ago de 2005

:: Em cartaz ::

O cinema mais antigo do meu bairro persiste.

Desde a infância enfrentei ali todo tipo de monstro. Viajei do espaço ao centro da Terra, voei, me apaixonei e fui traído tantas vezes. Lembro da interminável promoção “por tempo limitado”, que reduzia à metade o preço normal dos ingressos. Lembro da vendedora que continua ali, avisando a quem está na fila que as balas por ela vendidas têm preço melhor do que o praticado pela bombonière lá de dentro. Lembro da galeria, território proibido para os garotos que infernizavam os espectadores do térreo, e só liberada quando entravam em cartaz os filmes mais esperados. Lembro da fila que então dobrava a esquina, obrigando a antecipar a saída de casa em mais de uma hora. Quem enfrentava o desafio, e assistia ao filme, tinha o direito de por algum tempo exibir-se como verdadeiro detentor de informação privilegiada. E de fato o era, quando havia mais sonhos e menos realidade na mente das crianças.

Assim como os novos tempos marcaram minha saída da infância e entrada na vida adulta, trouxeram desafios também ao cinema.

Enfrentou uma inquisição contra a igreja, quase sendo entregue às suas chamas. Enfrentou contratos que propunham mais um condomínio em seu ponto privilegiado.
E encarou de frente a chegada dos Multiplex, cinemas com grife, mas sem identidade ou carisma.

Enfrentou toda a pasteurização da diversão, que transformou a Sétima Arte em opção para quem acha que não há nada de mais interessante pra fazer. Enfrentou a introspecção de pessoas que se conhecem virtualmente, mas que não saem de casa para olhar nos olhos umas das outras; Que comem fast-food e procuram por suas metades em sites de relacionamento; Que sabem tanto a respeito de tantas teorias, mas que na prática da vida caem fragilizadas pela falta de anticorpos contra o pânico da realidade.

Faço questão de não roubar de mim mesmo essa pequena porção de passado, essa linha tênue que sustenta mais do que me atrevo a entender. E por isso fico feliz quando me percebo, todos os dias, procurando pela janela o velho letreiro em branco e vermelho, com sua nova proposta para outra semana.



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22 de ago de 2005

:: Confissão ::

Qualquer centelha de esperança rouba meu sono, como rouba o de uma criança às vésperas do Natal. A expectativa do que não é mais que possibilidade, remota e escondida, mas que ainda assim é fôlego novo para quem se via ultrapassado há milhas pelas passadas mais rápidas dos outros corredores.

Recebo-a como recebe as primeiras gotas de chuva o leito seco do rio, como tônico que revigora músculos, idéias e sorrisos, restaurando o semblante do rosto e do espírito. E vejo mostrar-se no ar que invade forte os pulmões, escapa e alimenta esse desejo quase angústia, projetado na tela branca e às sombras do teto.

Sonhos que tenho e que vivo enquanto me bastam, até que a impossibilidade de agarrá-los me devolva à insanidade da vida real. Ou que, em meus braços, se mostre enfim seu propósito.
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19 de ago de 2005

:: Do que nos cabe ::

Chamar para si a responsabilidade sobre qualquer coisa que está, via de regra, fora do nosso alcance, é a maneira mais primária de mostrar uma conscientização que na verdade não existe. Soa bonito em uma mesa de bar, impressiona porque parece coisa de quem tem integridade suficiente para reconhecer os próprios erros. Discurso de fibra, de moral. Mas, entretanto, vazio e pueril.

Outro dia recebi um mail dizendo que se o país está afundado na corrupção como está é porque pessoas como eu sentem-se indignadas mas não fazem nada a respeito. Assim como ouço que se há violência, desemprego, fome, doença e tantas coisas mais, é porque “eu e você não fazemos nada, e essa é a verdade.”

Vamos colocar os pingos nos is.

Não é porque não faço parte do Greenpeace que não me incomodo com as queimadas na Amazônia. Não é porque não sou integrante do PETA que não me importo que matem animais. Não é porque não sou da CARE que não ligo para as pessoas atingidas por tragédias, naturais ou não. Me importo com cada uma dessas coisas. Com cada pessoa faminta, cada doente não medicado, cada criança que faz malabarismos no sinal. E admiro aqueles que podem dedicar suas vidas a causas como essas, pemitindo avanços que se refletem no meio ambiente e na sociedade.

Mas não é com um discurso demagógico que qualquer realidade vai ser alterada. A realidade é alterada quando fazemos aquilo que podemos.

Entre outras coisas, ajudo a um faminto quando o vejo à porta do supermercado pedindo alimento. Ajudo a combater o desemprego oferecendo vagas onde trabalho e indicando quem vem a mim para locais onde sei que as há. Ajudo a combater a violência, contra pessoas ou animais, denunciando aos órgãos competentes algo que vejo. E ajudo a construir um país melhor quando voto em quem acredito que pode torná-lo assim.

Se fosse usar os dias, cujo tempo não é meu, para atender a cada chamado “à conscientização” que me é feito, faltariam horas na semana para visitar todas as ONGs às quais teria que me filiar. Isso significa que, por não estar filiado a elas, o sentimento que tenho a respeito da realidade não é valido?

Da mesma forma, não aceito que me culpem “por não fazer nada” quando estou cumprindo meu papel ao trabalhar e garantir o modus operandi do sistema democrático em que vivemos, que permite elegermos mesmo os políticos que usam desse sistema para trabalhar contra nós – mas que continuam sustentando a liberdade de expressão que abre as portas para todas as demais reivindicações “conscientizadas”. Que permite que movimentos indignados como os dos carapintadas tomem as ruas, expressando o sentimentos de todos nós – ainda que nem todos nós possamos estar lá. Que permite protestos e mesmo mensagens como essas tantas, que lotam nossos mailboxes tentando fazer pesar nossas consciências ao mesmo tempo em que tentam aliviar as de quem as enviou.

O meu trabalho, assim como o de todos nós, proporciona isso.

Quem está errado são aqueles que, enfim, traem a confiança neles depositada. Não nós, eleitores, que vimos neles os rumos que acreditávamos certos para o país. Favor não inverter as responsabilidades.

Cumpro as leis – coisa que não é mais que obrigação - , pago meus impostos, cumpro meus deveres e exerço meus direitos. Entre eles, o do voto. Como cidadão, é esse o papel que me cabe. E se os governantes não cumprirem o deles, que paguem como únicos responsáveis que são.


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13 de ago de 2005

:: Sim ::

Não quero tentar de novo
Não quero pensar melhor
Não quero pedir outro prato
Não quero mudar de lado
Não quero outra chance
Não quero ver se chegou
Não quero explicar de novo
Não quero ver de outra forma
Não quero decidir depois
Não quero voltar agora
Não quero chegar nela
Não quero deixar pra lá
Não quero ter certeza
Não quero sobremesa
Não quero ligar de novo
Não quero pedir desculpas
Não quero ter que desculpar
Não quero rir sem vontade
Não quero fingir que entendi
Não quero assistir à Fórmula 1
Não quero estar sempre à frente
Não quero que olhem pra mim
Não quero que façam outra vez
Não quero mostrar a pasta
Não quero fazer social
Não quero salada
Não quero fazer uma visita
Não quero medir o colesterol
Não quero repensar meus conceitos
Não quero fazer o auto-exame
Não quero conferir meu extrato
Não quero ajudar a espalhar a notícia
Não quero reenviar este e-mail
Não quero ganhar o celular da promoção
Não quero ir à festa
Não quero passar aí antes
Não quero oferecer carona
Não quero ficar até de manhã
Não quero pedir com jeitinho
Não quero me expressar melhor
Não quero deixar que você faça
Não quero chegar uma hora mais cedo
Não quero "só dar um alô"
Não quero sair com você
Não quero que gostem de mim "só como amigo"
Não quero esperar o troco
Não quero fazer o que devo
Não quero "porque é importante"
Não quero que decidam por mim
Não quero um sorriso educado
Não quero voltar pela Zona Sul
Não quero o silêncio recatado
Não quero querer e não dizer
Não quero ter medo de nem sei
Não quero continuar escrevendo
Não quero ser uma grande promessa
Não quero ser o que todos esperam
Não quero viver à sombra de mim
Não quero trocar os lençóis
Não quero a louça lavada
Não quero acordar mais cedo
Não quero ver o sol se pôr
Não quero a camiseta verde
Não quero fingir que não sinto
Não quero fingir o que não sinto
Não quero fingir que não vejo
Não quero esquecer porque é melhor
Não quero que a vida continue
Não quero dormir porque é tarde
Não quero ir à praia só porque faz sol
Não quero sair só porque é sexta
Não quero outro gole
Não quero outro amor
Não quero ficar só
Não quero sentir tudo outra vez
Não quero fingir ser quem não sou
Não quero ser como sou
Não quero conferir se repeti alguma frase
Não quero ir à formatura
Não quero viajar pelo espaço
Não quero comprar o tal presente
Não quero ir porque você acha que eu devo
Não quero terminar, porque ainda há tanto...
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10 de ago de 2005

:: Paleta ::

Me sinto mais velho que meus anos, revivendo memórias que remontam há mais tempo do que deveria estar disposto a lembrar. Memórias que ainda deveriam estar se acumulando atrevem-se a assumir a posição daquelas a serem carregadas até quando chegarem os “maus dias, nos quais (direi) ‘não tenho neles nenhuma alegria’” Saudosismo de quem viveu pouco demais para sentir saudade seja do que for. Ou, como nas palavras de Renato Russo, sente saudade de tudo o que ainda não viu. É como estar parado enquanto o resto do mundo segue adiante; com tanto a descobrir, tanto ainda por fazer, tantas coisas que ainda terão sua primeira vez, pareço deslocado em um tempo ao qual não pertenço.

A sensação aparece em toda sua complexidade quando vejo, por exemplo, amigos casando. Parece algo estranho, irreal, como outra de tantas molecagens que fazíamos quando mente e idade caminhavam emparelhadas. Em algum momento sinto que a sincronia se perdeu, e perdido fiquei nos sonhos que alimento ainda hoje – infantilidade, há alguém de rotular com a propriedade conveniente de quem conseguiu, ou permitiu-se, crescer. Não me sinto como penso que deveria. Não me comporto como pensam que deveria. Me importo com coisas que não são minimamente importantes, enquanto às que são não dou a menor importância. A cobrança por atitudes previsíveis, no entanto, não falha em sua constância. Digo o que sinto, faço o que penso, e retorno incansavelmente para sentimentos devastadores para os quais juro constantemente jamais voltar.

Talvez veja cores demais, quando a realidade insisite em mostrar-se em preto e branco.



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6 de ago de 2005

:: Aos romanos ::

É pena que um dos maiores acontecimentos da história recente do país só esteja recebendo tanta atenção por pura falta de alternativa em entretenimento. Se este ano fosse de Copa do Mundo, à essas alturas nada se estaria falando de mensalão ou de Roberto Jefferson. As tvs Câmara e Senado, que jamais sonharam ser opção para quem não é ligado à vida política, continuariam tendo tanta audiência quanto os circuitos internos de tv dos condomínios - que muitas vezes são, de fato, bem mais interessantes.

Quando cessarem os shows teatrais e denúncias – e essas precisam ser, obrigatoriamente, de gravidade crescente-, as atenções de toda a população podem voltar-se com o mesmo interesse para a Sessão da Tarde ou algo que o valha. Graças a Bob Jeff, hoje continua não havendo pão, mas há muito circo.

A pobreza que exigimos e da qual nos alimenta a programação televisiva é o retrato e molde de uma sociedade de valores desgastados e absurdamente pouco interessantes. Enquanto isso, continuamos deixando nosso futuro ser moldado pelo zapping


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2 de ago de 2005

:: Efeito borboleta ::

Queria saber quem foi que disse que na internet não é preciso escrever em português correto. Não foi só uma vez que escutei essa justificativa para palavras como “descente”, “discursão” ou “opnião”. Se alguém reclama, é imediatamente rechaçado, rotulado como chato e antiquado. O certo é escrever AxIm, Di Um GeItu Ki SoH eH LeGaU sI nUm DeH pAh InTeNdE Nd. Simplesmente insuportável. Ou pelo menos a mim parece.

A moda é dizer que a internet é um espaço livre, e que por isso deveria comportar o que quer que seja que qualquer mente possa produzir. Parece difícil para algumas pessoas entender que o mesmo comportamento que têm aqui manifesta-se em todos os lugares. E se nem a internet tem de fato toda essa liberdade, muito menos têm o mundo físico. Isso é coisa que deveria parecer grave em dias onde as amizades virtuais são muito mais freqüentes que as físicas. Onde o namoro começa com o dedilhar no teclado ao invés da conversa ao pé do ouvido e da troca de olhares – exceto quando feitos pela webcam. Na imensa vitrine que são os computadores pessoais, muito pouco os produtos parecem preocupar-se com o próprio valor.

A mesma geração que compra e vende via net e que descarta uns aos outros com um delete é a geração que afasta-se assustada dos livros. Acham que a leitura é coisa chata, e não parecem perceber que é ela que agiliza o pensamento para tudo o mais. Mas o que, hoje em dia, requer pensamento ágil? O que requer empenho? O comodismo do on e do off transporta-se para todas as áreas da vida.

Dentro desse espaço livre há drogas à venda tanto quanto há livros. Há racismo. Há coisas que nem ao menos merecem ser citadas aqui. Tudo em nome de uma liberdade falsa, que aprisiona a alma de quem vê e se transforma em prisão real para quem a produz.

Uma pequena concessão traduz-se em grandes conseqüências.



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