19 de ago de 2005

:: Do que nos cabe ::

Chamar para si a responsabilidade sobre qualquer coisa que está, via de regra, fora do nosso alcance, é a maneira mais primária de mostrar uma conscientização que na verdade não existe. Soa bonito em uma mesa de bar, impressiona porque parece coisa de quem tem integridade suficiente para reconhecer os próprios erros. Discurso de fibra, de moral. Mas, entretanto, vazio e pueril.

Outro dia recebi um mail dizendo que se o país está afundado na corrupção como está é porque pessoas como eu sentem-se indignadas mas não fazem nada a respeito. Assim como ouço que se há violência, desemprego, fome, doença e tantas coisas mais, é porque “eu e você não fazemos nada, e essa é a verdade.”

Vamos colocar os pingos nos is.

Não é porque não faço parte do Greenpeace que não me incomodo com as queimadas na Amazônia. Não é porque não sou integrante do PETA que não me importo que matem animais. Não é porque não sou da CARE que não ligo para as pessoas atingidas por tragédias, naturais ou não. Me importo com cada uma dessas coisas. Com cada pessoa faminta, cada doente não medicado, cada criança que faz malabarismos no sinal. E admiro aqueles que podem dedicar suas vidas a causas como essas, pemitindo avanços que se refletem no meio ambiente e na sociedade.

Mas não é com um discurso demagógico que qualquer realidade vai ser alterada. A realidade é alterada quando fazemos aquilo que podemos.

Entre outras coisas, ajudo a um faminto quando o vejo à porta do supermercado pedindo alimento. Ajudo a combater o desemprego oferecendo vagas onde trabalho e indicando quem vem a mim para locais onde sei que as há. Ajudo a combater a violência, contra pessoas ou animais, denunciando aos órgãos competentes algo que vejo. E ajudo a construir um país melhor quando voto em quem acredito que pode torná-lo assim.

Se fosse usar os dias, cujo tempo não é meu, para atender a cada chamado “à conscientização” que me é feito, faltariam horas na semana para visitar todas as ONGs às quais teria que me filiar. Isso significa que, por não estar filiado a elas, o sentimento que tenho a respeito da realidade não é valido?

Da mesma forma, não aceito que me culpem “por não fazer nada” quando estou cumprindo meu papel ao trabalhar e garantir o modus operandi do sistema democrático em que vivemos, que permite elegermos mesmo os políticos que usam desse sistema para trabalhar contra nós – mas que continuam sustentando a liberdade de expressão que abre as portas para todas as demais reivindicações “conscientizadas”. Que permite que movimentos indignados como os dos carapintadas tomem as ruas, expressando o sentimentos de todos nós – ainda que nem todos nós possamos estar lá. Que permite protestos e mesmo mensagens como essas tantas, que lotam nossos mailboxes tentando fazer pesar nossas consciências ao mesmo tempo em que tentam aliviar as de quem as enviou.

O meu trabalho, assim como o de todos nós, proporciona isso.

Quem está errado são aqueles que, enfim, traem a confiança neles depositada. Não nós, eleitores, que vimos neles os rumos que acreditávamos certos para o país. Favor não inverter as responsabilidades.

Cumpro as leis – coisa que não é mais que obrigação - , pago meus impostos, cumpro meus deveres e exerço meus direitos. Entre eles, o do voto. Como cidadão, é esse o papel que me cabe. E se os governantes não cumprirem o deles, que paguem como únicos responsáveis que são.


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Um comentário:

Cris Cidade disse...

Compartilho totalmente da sua opinião, sem tirar nem pôr uma vírgula.
Infelizmente, reinam a hipocrisia e um discurso vazio que, se levado a cabo integralmente, teria como única conseqüência o caos generalizado (porque, sim, é possível piorar).
O de sempre, né, Renato? O de sempre...