25 de ago de 2005

:: Em cartaz ::

O cinema mais antigo do meu bairro persiste.

Desde a infância enfrentei ali todo tipo de monstro. Viajei do espaço ao centro da Terra, voei, me apaixonei e fui traído tantas vezes. Lembro da interminável promoção “por tempo limitado”, que reduzia à metade o preço normal dos ingressos. Lembro da vendedora que continua ali, avisando a quem está na fila que as balas por ela vendidas têm preço melhor do que o praticado pela bombonière lá de dentro. Lembro da galeria, território proibido para os garotos que infernizavam os espectadores do térreo, e só liberada quando entravam em cartaz os filmes mais esperados. Lembro da fila que então dobrava a esquina, obrigando a antecipar a saída de casa em mais de uma hora. Quem enfrentava o desafio, e assistia ao filme, tinha o direito de por algum tempo exibir-se como verdadeiro detentor de informação privilegiada. E de fato o era, quando havia mais sonhos e menos realidade na mente das crianças.

Assim como os novos tempos marcaram minha saída da infância e entrada na vida adulta, trouxeram desafios também ao cinema.

Enfrentou uma inquisição contra a igreja, quase sendo entregue às suas chamas. Enfrentou contratos que propunham mais um condomínio em seu ponto privilegiado.
E encarou de frente a chegada dos Multiplex, cinemas com grife, mas sem identidade ou carisma.

Enfrentou toda a pasteurização da diversão, que transformou a Sétima Arte em opção para quem acha que não há nada de mais interessante pra fazer. Enfrentou a introspecção de pessoas que se conhecem virtualmente, mas que não saem de casa para olhar nos olhos umas das outras; Que comem fast-food e procuram por suas metades em sites de relacionamento; Que sabem tanto a respeito de tantas teorias, mas que na prática da vida caem fragilizadas pela falta de anticorpos contra o pânico da realidade.

Faço questão de não roubar de mim mesmo essa pequena porção de passado, essa linha tênue que sustenta mais do que me atrevo a entender. E por isso fico feliz quando me percebo, todos os dias, procurando pela janela o velho letreiro em branco e vermelho, com sua nova proposta para outra semana.



•••

Um comentário:

Cris Cidade disse...

É uma pena que também lá só tenham lugar os blockbusters... Mas como ser diferente e ainda assim sobreviver? Acho que já seria pedir demais.
De qualquer forma, vamos comprando "balinha barata, balinha barata"!!!