10 de ago de 2005

:: Paleta ::

Me sinto mais velho que meus anos, revivendo memórias que remontam há mais tempo do que deveria estar disposto a lembrar. Memórias que ainda deveriam estar se acumulando atrevem-se a assumir a posição daquelas a serem carregadas até quando chegarem os “maus dias, nos quais (direi) ‘não tenho neles nenhuma alegria’” Saudosismo de quem viveu pouco demais para sentir saudade seja do que for. Ou, como nas palavras de Renato Russo, sente saudade de tudo o que ainda não viu. É como estar parado enquanto o resto do mundo segue adiante; com tanto a descobrir, tanto ainda por fazer, tantas coisas que ainda terão sua primeira vez, pareço deslocado em um tempo ao qual não pertenço.

A sensação aparece em toda sua complexidade quando vejo, por exemplo, amigos casando. Parece algo estranho, irreal, como outra de tantas molecagens que fazíamos quando mente e idade caminhavam emparelhadas. Em algum momento sinto que a sincronia se perdeu, e perdido fiquei nos sonhos que alimento ainda hoje – infantilidade, há alguém de rotular com a propriedade conveniente de quem conseguiu, ou permitiu-se, crescer. Não me sinto como penso que deveria. Não me comporto como pensam que deveria. Me importo com coisas que não são minimamente importantes, enquanto às que são não dou a menor importância. A cobrança por atitudes previsíveis, no entanto, não falha em sua constância. Digo o que sinto, faço o que penso, e retorno incansavelmente para sentimentos devastadores para os quais juro constantemente jamais voltar.

Talvez veja cores demais, quando a realidade insisite em mostrar-se em preto e branco.



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2 comentários:

Marcela Berlandez disse...

Acho que a maioria das pessoas se sente assim. Bem, pelo menos as que param para observar o que está em volta. Tb me sinto fora do meu tempo muitas vezes e, o mais incrível é descobrir que isso não se resume a uma questão cronológica.
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Estou aqui pra dizer que já estou trabalhando novamente. Sou a redatora que te encontrou no elevador do seu prédio (que é tb o da minha avó), lembra?!

Tudo de bom pra vc.
bjs,

Cris disse...

Você só precisa pertencer ao seu próprio tempo e ao de mais ninguém.
E eu espero, sinceramente, que as cores nunca lhe faltem. Só quem vê colorido é capaz de se livrar do cinza. Pros outros, passa despercebido.
E quem pode falar de "crescimento", "maturidade"? Hoje ouvi numa peça algo que sempre soube: os adultos nada mais são do que crianças fingindo-se de adultos.
Beijo pra você!