31 de ago de 2005

:: Reflexo ::

Conheço pessoas que têm medo de si mesmas. Medo de descobrir quem de fato são, ou poderiam ser, uma vez despidas de todas as circunstâncias que, como sacos de areia, impedem confortavelmente qualquer vôo mais alto. Têm medo das cobranças que poderiam sofrer, das exigências, uma vez que nada as atrapalhe e assim acabem os argumentos para justificar um desempenho aquém do esperado.

Nesses argumentos estão os filhos e sua demanda de atenção. Ou pais. Ou a infiltração que o vizinho do 301 não conserta nunca e que, por isso, rouba toda a sua atenção e entrega ao encanador que terá ou não sido chamado para resolver o problema.

Resolvidas todas as coisas, outras esperam para vir. Afinal, problemas todo mundo tem. A grande saída para manter-se no conforto da mediocridade é projetar em tudo o que orbita à nossa volta a responsabilidade por aquilo que não nos permitimos ser – ou descobrir que somos. Acabados os argumentos, resta diante de nós apenas o espelho e a pergunta: “e agora, o que vai?”

É o medo de não ser tão bom quanto se pensava. Enquanto houver sacos de areia, há conforto. “Como posso pensar nisso, se há tanto mais acontecendo?”


- É isso, rapaz. É este quem você é. Satisfeito? – diz o espelho.
- Não.
- Quer mudar?
- Sim.
- Quando?
- Assim que resolver isso aqui, que lembrei agora.

As trincheiras nos deixam seguros. Mas a batalha acontece fora delas.


•••

2 comentários:

glauglau disse...

É... como já dizia o filósofo, "Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. Aventurar-se no sentido mais amplo é precisamente tomar consciência de si próprio". (Kierkegaard)

Bia disse...

Pois foi por isso mesmo que doei meu espelho...

:)