27 de set de 2005

:: Quarta ::

Aterro à noite com ônibus vazio
Chuva fina na janela ao lado
Lua furtiva, se esconde entre nuvens
Fone no ouvido tocando blues
Olhos perdidos fitando o além
Só mais uma noite da semana,
e pensamentos vadios
que me lembram alguém.

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23 de set de 2005

:: Dúvida ::

Sinto que tenho alguma coisa a dizer a você,
mas não sei bem o quê.
Talvez por não saber bem o que sinto.

Talvez por não saber se o que sinto é por você.
E talvez descobrindo que é, se você deveria saber.

Talvez por não saber exatamente quem é você.
Ou por não saber se você sabe exatamente quem sou eu.
Ou ainda por saber que eu mesmo não sei quem sou.

Sentir por alguém o que não se identifica talvez seja a própria identificação daquele tal sentimento único:
um para cada vida, por toda a vida.

Se é que há alguém, que esse alguém é você,
e que a porção que me cabe repousa em seu colo.

Me diga que sabe quem sou,
e talvez eu saiba o que dizer.
E aí vou saber que sei o que sinto.
E que é você, por você e para você, por toda a vida.

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20 de set de 2005

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Às vezes tenho uma vontade quase incontrolável de simplesmente desaparecer pelo mundo. Assim, do nada. Sem fazer as malas, sem despedir das pessoas, sem pedir o boné no emprego ou jogar o lixo fora. Sem colocar um último prato de ração para o gato, ou talvez colocando o próprio na mochila junto com o caderno, a caneta e a toalha sugerida por Douglas Adams. Tirar da conta tudo o que restar, sem me preocupar com a cobrança pelos serviços bancários a ser debitada todo o mês ou com a popularidade que meu nome alcançaria nos serviços de proteção ao crédito em função disso. Ir a um aeroporto e escolher um destino ao acaso ou tão ao acaso quanto permitisse a raspagem das economias. Ou ainda a um porto qualquer, e a um navio qualquer, deixando que o acaso se ocupasse de determinar o destino. Chegar a qualquer porto, para ficar por qualquer tempo, ocupado por qualquer coisa ou por coisa nenhuma, sujeito ao temperamento do povo local e aos humores da natureza.Sumir por anos, sem procurar saber quantos, e retornar um dia coberto por tatuagens e com o bracelete dos niños-em-cruz fechando meu pulso. Sem cartas pra antecipar a volta, sem endereço para colocar no remetente. Com marcas do que vivi mostradas na pele curtida e não na pele amarelada pelas luzes de escritório. Uma vontade irracional de diminuir as fronteiras que me disseram existir nas aulas de geografia, descobrir o que insinuavam os livros de história e aprender com a raça o verdadeiro som dos idiomas tão humilhados em suas versões travelling guide. Viver, não ouvir. Escrever, não ler.

Sonho com o dia em que a coragem vai vencer o medo e se aliar à certeza de que quase tudo que está inacabado não precisa, de fato, ser acabado. Que há mais que cifras. Que há gente, e há mundo.

Talvez um dia eu consiga largar tudo onde está, como está, e sair por aí. Talvez seja logo, antes que eu me dê conta. E sei que a partir desse dia,

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17 de set de 2005

:: Shhhhhh... ::

A obrigação de ser "sociável" é, na minha opinião, umas das piores imposições que podem ser feitas a qualquer pessoa. Se alguém lhe chama pra sair e você não vai, logo acham que seu caso é agorafobia, depressão, pânico ou qualquer outro desses diagnósticos que se confundem. Isso quando o autor do convite não acaba achando que a coisa é pessoal e que seu problema é com ele.

E tem mais. Se em um telefonema a sua voz não soa absolutamente esfuziante, como a de um bipolar no auge de seu episódio alegre, toda uma convivência que lhe deu fama de simpático é despudorada e imediatamente substituída pela alcunha de “estranho”. “Não vou chamar o Renato, afinal ele é meio estranho... da outra vez já não quis vir...”
É preciso conversar ininterruptamente, como se cada segundo de silêncio fosse um passo a mais para o abismo do isolamento, de onde é impossível sair e de onde ninguém está disposto a tirar o outro. Se aos olhos de todos você se tornou um eremita, é assim que vai ser tratado; afinal, naquele dia, você não quis sentar-se por duas horas num bar para conversar sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Dois assuntos, aliás, que você acha ótimos para um bate-papo em qualquer outra ocasião à qual iria se convidado, mas que à essas alturas já não será porque ficou estranho.

Respeito o silêncio. Imerso nele, qualquer um pode passar por inteligente. Por descolado. Por culto. Ou por qualquer coisa que o ambiente peça.
Se o silêncio deve ser quebrado, que seja por um bom motivo. No mais, a compreensão de que às vezes as portas fechadas são um período de inofensiva introspecção - e não uma afronta - também é muito bem-vinda.

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13 de set de 2005

:: Sombra ::

Ele soltou a sombra quando achou que podia.
Não mais dela notaria a falta.
Não agora que já andou por lugares ainda a entender.
Que o acompanhou pelos campos,
fugindo à noite, escondida.
Deixou que fosse livre, andar aos pés de outro,
se livre, de outro, os pés encontrar.

E junto a si, pelo que passou!
Luzes da madrugada, meios-fios encharcados,
cobriu bêbados e latas vazias.
Luzes vermelhas, de antros escondidos,
mulheres baratas e mármore riscado.
Sob luzes piscantes aparecia e se escondia, arredia,
evitando os olhares de quem a perseguia.
Fez-se de neons azuis e amarelos,
mostrou reduto de errantes.
Fez-se das luzes de sirenes.
Fez-se de vapor de sódio, numa esquina à espreita.
Buscou alforria, sob as costas de quem se deita.

Ele soltou a sombra, completou seus dias.
Algo dela manteve na alma e nos olhos.
Intocada, imaculada, onipresente.
A tinha nos olhos e sentimentos.
A viu no pulmão, a espreitar, assassina.
Hoje, já não mais dela precisa.
Pois vai agora pra donde veio ela,
bruxuleante, à luz de vela.

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9 de set de 2005

:: Bull's eye ::

Sinto desapontar, mas você não é importante a ponto de ser alvo de uma conspiração mundial. Os movimentos que fazemos não têm como objetivo único causar algum dano, mágoa ou mesmo repercussão na sua vida.

É cansativo regurgitar assuntos, remexer em mágoas que deveriam estar superadas. Mais cansativo ainda é quando vemos, passado já tempo mais do que o suficiente para o esquecimento, o procriar de mentiras e mal-entendidos que nunca tiveram a oportunidade de serem esclarecidos. E não tiveram porque é muito mais confortável repetir a mentira até admiti-la como verdade, como ensinou Goebbels. Muito mais fácil que enfrentar a própria pequeneza, os próprios demônios, a própria essência. Criar um mundo perfeito onde nada se contraria, nada se questiona. Onde ninguém se conhece ou se dá a conhecer, e as pessoas são apenas mais um dos bens de consumo não-duráveis à disposição dos nossos caprichos.

Se o discurso é outro, não importa. É como o falar combativo de um político ante a pobreza, onde sabemos que não há interesse real em erradicá-la. Pelo bom-senso, basta enxergar que a vida de cada um de nós já é complicada o suficiente em si mesma. Não há motivo para procurar na de outros uma simbiose contraproducente.

Nada é mais desgastante do que se ver forçado a explicar coisas que não precisam ser explicadas.

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6 de set de 2005

:: Métrica ::


Deu-me um poema
Deu-me um soneto
Deu-me um verso
Quando o que eu pedia de você
era apenas uma prosa.
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3 de set de 2005

:: Efígie ::

É possível perder uma amizade sincera?

Tive um amigo uma vez, que a vida levou.
Ainda caminha aqui, entre nós, mas distante como quis estar.
Amigo cujos momentos repartidos transformaram amizade em fraternidade.
Ainda assim, alheio a tudo, fez de boatos valor maior que de fatos.
Fez de anos menos que minutos, e de registros menos que palavras.
É confortável ouvir só o que apraz, cultivar sorrisos pasteurizados em quem é cego para o que há sob máscara.
Substância, no entanto, não há. Profundidade, nem ao menos procurada.
Guardo a memória do amigo-irmão, e em respeito deixo o andante à própria sorte.

Quantos “você está certo” alguém está destinado a ouvir, até que um estranho enfim lhe diga “você está sozinho”?


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