20 de set de 2005

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Às vezes tenho uma vontade quase incontrolável de simplesmente desaparecer pelo mundo. Assim, do nada. Sem fazer as malas, sem despedir das pessoas, sem pedir o boné no emprego ou jogar o lixo fora. Sem colocar um último prato de ração para o gato, ou talvez colocando o próprio na mochila junto com o caderno, a caneta e a toalha sugerida por Douglas Adams. Tirar da conta tudo o que restar, sem me preocupar com a cobrança pelos serviços bancários a ser debitada todo o mês ou com a popularidade que meu nome alcançaria nos serviços de proteção ao crédito em função disso. Ir a um aeroporto e escolher um destino ao acaso ou tão ao acaso quanto permitisse a raspagem das economias. Ou ainda a um porto qualquer, e a um navio qualquer, deixando que o acaso se ocupasse de determinar o destino. Chegar a qualquer porto, para ficar por qualquer tempo, ocupado por qualquer coisa ou por coisa nenhuma, sujeito ao temperamento do povo local e aos humores da natureza.Sumir por anos, sem procurar saber quantos, e retornar um dia coberto por tatuagens e com o bracelete dos niños-em-cruz fechando meu pulso. Sem cartas pra antecipar a volta, sem endereço para colocar no remetente. Com marcas do que vivi mostradas na pele curtida e não na pele amarelada pelas luzes de escritório. Uma vontade irracional de diminuir as fronteiras que me disseram existir nas aulas de geografia, descobrir o que insinuavam os livros de história e aprender com a raça o verdadeiro som dos idiomas tão humilhados em suas versões travelling guide. Viver, não ouvir. Escrever, não ler.

Sonho com o dia em que a coragem vai vencer o medo e se aliar à certeza de que quase tudo que está inacabado não precisa, de fato, ser acabado. Que há mais que cifras. Que há gente, e há mundo.

Talvez um dia eu consiga largar tudo onde está, como está, e sair por aí. Talvez seja logo, antes que eu me dê conta. E sei que a partir desse dia,

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2 comentários:

glauglau disse...

...se nao estivesse tão claro o "ir sozinho", eu me convidaria a ir com voce!(rs)

"Nunca será demasiado tarde para nos tornarmos quem somos, aceitando que a nossa vida não seja senão a nossa vida, mas que seja a nossa".(Bernard Feillet)

marceloalt disse...

ótimo texto, pra variar. Pena que só vai ler o elogio quando voltar da viagem daqui a muitos anos....rs