17 de set de 2005

:: Shhhhhh... ::

A obrigação de ser "sociável" é, na minha opinião, umas das piores imposições que podem ser feitas a qualquer pessoa. Se alguém lhe chama pra sair e você não vai, logo acham que seu caso é agorafobia, depressão, pânico ou qualquer outro desses diagnósticos que se confundem. Isso quando o autor do convite não acaba achando que a coisa é pessoal e que seu problema é com ele.

E tem mais. Se em um telefonema a sua voz não soa absolutamente esfuziante, como a de um bipolar no auge de seu episódio alegre, toda uma convivência que lhe deu fama de simpático é despudorada e imediatamente substituída pela alcunha de “estranho”. “Não vou chamar o Renato, afinal ele é meio estranho... da outra vez já não quis vir...”
É preciso conversar ininterruptamente, como se cada segundo de silêncio fosse um passo a mais para o abismo do isolamento, de onde é impossível sair e de onde ninguém está disposto a tirar o outro. Se aos olhos de todos você se tornou um eremita, é assim que vai ser tratado; afinal, naquele dia, você não quis sentar-se por duas horas num bar para conversar sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Dois assuntos, aliás, que você acha ótimos para um bate-papo em qualquer outra ocasião à qual iria se convidado, mas que à essas alturas já não será porque ficou estranho.

Respeito o silêncio. Imerso nele, qualquer um pode passar por inteligente. Por descolado. Por culto. Ou por qualquer coisa que o ambiente peça.
Se o silêncio deve ser quebrado, que seja por um bom motivo. No mais, a compreensão de que às vezes as portas fechadas são um período de inofensiva introspecção - e não uma afronta - também é muito bem-vinda.

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3 comentários:

cris cidade disse...

É raro encontrar alguém que se sinta confortável diante do silêncio, né?
Eu tenho uma amiga que, quando éramos adolescentes, dizia: "sei que somos amigas de verdade porque, quando o papo acaba, conseguimos ficar em silêncio sem constrangimento, sem buscar desesperadamente assuntos inexistentes e inúteis, só pra preencher o 'buraco'..."
Éramos duas idiotas naquela época - naturalmente, haha! - mas ela tinha razão. O silêncio pode ser muitas coisas. Inclusive conforto e cumplicidade.
Beijo!

Bia disse...

Taí duas coisas que me fazem falta: silêncio e introspecção.

Sempre tem que ter um som, qq som, não importa a qualidade. Tudo vale desde que preencha o vazio do silêncio (tem coisa mais insuportável que rádio? é de cortar os pulsos...).

Com tantos ruídos e sons as pessoas conseguem evitar a voz da própria consciência.

É como sempre digo, copiando inspiração alheia: se eu quiser barulho, eu mesma faço...

glauglau disse...

"esfuziante, como a de um bipolar no auge de seu episódio alegre" foi ótima! rs...