13 de set de 2005

:: Sombra ::

Ele soltou a sombra quando achou que podia.
Não mais dela notaria a falta.
Não agora que já andou por lugares ainda a entender.
Que o acompanhou pelos campos,
fugindo à noite, escondida.
Deixou que fosse livre, andar aos pés de outro,
se livre, de outro, os pés encontrar.

E junto a si, pelo que passou!
Luzes da madrugada, meios-fios encharcados,
cobriu bêbados e latas vazias.
Luzes vermelhas, de antros escondidos,
mulheres baratas e mármore riscado.
Sob luzes piscantes aparecia e se escondia, arredia,
evitando os olhares de quem a perseguia.
Fez-se de neons azuis e amarelos,
mostrou reduto de errantes.
Fez-se das luzes de sirenes.
Fez-se de vapor de sódio, numa esquina à espreita.
Buscou alforria, sob as costas de quem se deita.

Ele soltou a sombra, completou seus dias.
Algo dela manteve na alma e nos olhos.
Intocada, imaculada, onipresente.
A tinha nos olhos e sentimentos.
A viu no pulmão, a espreitar, assassina.
Hoje, já não mais dela precisa.
Pois vai agora pra donde veio ela,
bruxuleante, à luz de vela.

•••

Um comentário:

cris cidade disse...

Uau! Adorei!
Beijos!