28 de out de 2005

:: Auto-insuficiência ::

Incrível como algumas pessoas têm medo de tornarem-se significativas para outras. Mostram-se a nós sedutoras, encantadoras, indispensáveis; até que, convencidos disso, somos repudiados. Disfarçam a prática dando-lhe um nome muito carpe diem: liberdade. E a partir de então, a mudança: já não podem mais ser interessantes a ponto de valer algum compromisso, um programa pré-agendado ou um telefonema a qualquer hora pra falar nada. Alegam que estão em outro momento, ou que acabaram de sair de um em especial, e que é por isso que não querem entrar em outro. Carregam cicatrizes que têm certeza serão reabertas, mesmo que não tenham motivo algum para confirmar tal suspeita. No final das contas, privam a si e a outrem – também com seu quinhão de quelóides – de uma nova experiência que, na pior das hipóteses, simplesmente terminaria. Aqui, claro, supondo um mínimo de maturidade em ambas as partes.

Dessa e de tantas outras formas enganam-se e pensam que por isso são autênticas: “Ninguém me diz o que fazer”. Esquecem-se que muitas vezes ninguém quer ditar regras; quiçá queiram exatamente o oposto. Esquecem-se que só se encontra liberdade genuína quando há alguém que a complete, e que uma vez que assim se sintam – óbvio ululante – de nada sentirão falta: os desejos, se não mudam, são compartilhados; os sonhos tornam-se os mesmos; as realizações de cada um, de ambos; e as brigas, como as de tantos alforriados, existem e deixam de existir quase na mesma velocidade.

A pessoa que se entrega é vista como a errada: está confundindo as coisas. Aquela que não trata a outra como bem de consumo descartável, como um emplastro ou fast-food, é a careta: “aprenda a curtir o momento”. Mas o que é um período de tempo se não uma grande soma de todos esses?

São pessoas que se esquecem que aproveitar só o aqui e agora é paliativo. Não que tudo deva levar além, mas não há que ter medo de que alguém possa, ou queira, fazê-lo. Não é isso, afinal, que nos faz estar aqui hoje?

Não é por querer dar mais um passo que nos precisam cortar os pés.
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