1 de out de 2005

:: Convergência ::

Percebi que, em meu círculo de influência, havia uma série de pessoas com as quais não fui sincero comigo.

Quase todo mundo com quem converso define a si mesmo como alguém que “ama a sinceridade”. De uns tempos pra cá venho reparando o quanto isso não é verdade. As pessoas gostam de se sentir sinceras, mas dificilmente o são. Confundem sinceridade com grosseria, com arrogância, com o “eu digo o que penso e pronto”. Ou mesmo aqueles que conseguem se desvencilhar de tudo isso e de fato ser sinceros com outros, quase nunca o são consigo mesmos. Aqui eu grito “presente”.

Sempre fui considerado sincero por aqueles que me conhecem, inclusive por mim. Creio de fato ter sido, com eles; mas agora vejo que nunca o fui de todo, ao não ser comigo. E ao confessá-lo, enfim faço a primeira afirmação sincera a meu próprio respeito.

Percebi que a coragem que sobrava para falar aos outros a respeito deles me faltou para falar a eles a respeito de mim. Mais do que isso, percebi o quanto deixei de viver e de experimentar em conseqüência disso. Essa consciência e a decisão pelo acesso de sinceridade tardia causaram-me calafrio. Nó nas entranhas. Coceira na língua. E um medo irracional de fazer papel de ridículo ao tentar mudar as coisas. Mas uma vez escolhido o caminho, voltar atrás seria mais uma traição.

Aos poucos comecei a encontrar as tais pessoas. E apesar das borboletas no estômago, as palavras saíram. E então aconteceu.

Todo o tempo que sabia ter perdido até aqui continuou perdido. Mas de alguma forma libertadora, a revelação dos sentimentos há tanto relegados ao arquivo morto deu lugar a uma inesperada leveza de espírito. Uma leveza, na verdade, que pouco se apóia na razão ou em qualquer tipo de lógica, mas tão evidente como a surpresa no semblante de quem me ouviu. A transparência, soterrada pela poeira de anos de indiferença e da repetição como um mantra da velha e cômoda frase “foi como tinha de ser”, enfim se pôde mostrar. E eu, a mim mesmo, enfim me pude mostrar. Ao menos um pouco mais.

Causei surpresa a muitos, mas a ninguém tanto quanto a mim mesmo. Mas fiz as pazes com o passado irrecuperável, deixando que siga rumo ao seu recôndito favorito da memória, e já adestro para o futuro as borboletas irrequietas, usando de suspiros profundos e lentamente expirados.

E, agora sim, será como tiver de ser.

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