4 de out de 2005

:: Polígrafo ::

Há dias em que consigo ver as coisas com mais clareza.

Dias que chegam sem aviso, quando a luz surge mais forte e alcança lugares habitados apenas pelas sombras e pela escuridão. Alcança tudo, invade até mesmo as frestas da porta e o buraco da fechadura do quarto escondido, trancado, com seus pecados de estimação e segredos de alcova. Em seu feixe incisivo brilham, suspensos no ar, os grãos de poeira e as memórias escondidas, sobreviventes de sua própria negação veemente: não há quarto, não há pecados, não há segredos.

Tudo o que já me é tão conhecido mostra-se em texturas diferentes. As pessoas que conheço há tanto então me parecem outras, ou talvez enfim pareçam como deveriam parecer sempre. Minhas vontades e pensamentos encontram menos barreiras para se expandir, menos medos com que se privar e menos preocupações com que refletir.

Decisões são tomadas quando a luz incide forte sobre as vontades. O que já aconteceu parece menos importante, e o que pode acontecer torna-se uma necessidade.

Não consigo concluir se os dias iluminados são os de lucidez ou aqueles em que a linha d’água simplesmente passa abaixo do nariz, permitindo que o novo fôlego nos pulmões mostre o tanto de preocupações desnecessárias, ainda que o cinza de todo dia seja, também ele, uma cor. Não sei se são dias de egoismo ou autenticidade, e se a pessoa que sou neles é aquela que sou sempre, porém não enxergo: alguém que apenas vislumbro num relance, em um dia qualquer, de passagem para outro lugar.

A cada noite de cada dia iluminado, fujo das areias do Sono para que a luz não se apague. E para que a alvorada não traga um sol que, mais uma vez, encha-me os olhos de sombras.

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