7 de out de 2005

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O tempo tem a faculdade ímpar e cruel de nos fazer evocar nas brumas das lembranças apenas aquilo que vivemos de bom com alguém. Desaparecem em meio a pouquíssimos vestígios todas as discussões, todo o verbo mais alto, todas as palavras que antes não se tivessem deixado eclodir de sua mera intenção, e resta a nostalgia de que era um tempo de alegria genuína, de paz e de paixão inesgotável.

Ouço o lamento de amigos que lembram de namoros terminados, romances soterrados pelos anos de indiferença, e que são hoje levados a crer que eram esses os seus amores de toda a vida. Que se fosse hoje, ah se fosse hoje, como seriam diferentes as coisas. Os erros cometidos, reaparecidos num mea culpa involuntário, jamais poderiam outra vez ter sua oportunidade. E as flores mais coloridas que então havia, o sol mais brilhante, o ar mais puro e o céu mais azul enfim perdurariam por toda a eternidade, uma vez que eterno seria esse amor. Lamentam a cada dia a impossibilidade de uma nova chance, e choram ao ver suas amadas de braços dados com outros com a mesma inocência que chora uma criança o amor por sua professora do fundamental.

Digo aos amigos que se a lembrança que têm lhes é tão preciosa, que a guardem em segredo como o maior benefício que poderiam tirar dos seus romances passados. As musas de outrora são âncoras de um tempo, uma circustância, que não pode mais voltar. Ainda que um desses amores se disponha ser, novamente, o seu de agora, as flores daquela época já morreram, os sol já ilumina outros dias, o vento já soprou por demais e mesmo o céu já nos trouxe muitas tempestades. As lembranças devem repousar onde lhes é de direito para que nos horizontes ansiosos possam enfim despontar outras tantas possibilidades.

A quem os quiser receber, procuro dizer, novos dias trarão novos amores.

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3 comentários:

Bia disse...

Será?

glauglau disse...

nossa, que bonito!!

Lu disse...

É isso... A cada dia basta seu próprio mal.
Feliz cada novo dia. =)