27 de dez de 2005

:: Ano Novo ::

Resolvi que, se é no início do ano que estabelecemos tudo aquilo que há de se cumprir nos próximos 365 dias, nada melhor que fazê-lo por escrito. É o que vale, pelo que dizem.

Assim, decidi que meu livro vai enfim sair do teclado e ganhar as prateleiras. Que vai conter diálogos mais elaborados que os de Aldous Huxley e mais espontâneos que os de J.D. Salinger. E que essa obra vai me dar o Pulitzer e o Nobel, além de uma cadeira extra colocada na ABL especialmente para mim.

Durante minha entrevista no Letterman, respondo: “Hemingway who?”

Decidi que vou ganhar a Medalha Fields, apesar de já não recordar nem mesmo como solucionar uma equação do segundo grau e de minhas semelhanças com John Nash se limitarem a ver o que não está lá.
Se alguém quiser me ajudar a lembrar das equações, cito o nome no discurso de agradecimento.

Decidi que vou ser igual ao Brad Pitt. Fisicamente, quero dizer. Ainda que pra isso tenha que passar por uma breve cirurgia plástica.

(Ok, talvez não tão breve.)

Financeiramente, vou bater Bill Gates. E com esse dinheiro, fazer coisas mais excêntricas que apenas inserir joguinhos secretos nas planilhas do Excel.
Decidi que os desenhos que faço serão descobertos por um olheiro à Andy Warhol, e que os museus de todo o mundo retirarão os quadros do Lichtenstein das paredes para que dêem lugar aos meus.

Decidi reinventar todas as teorias a respeito de buracos-negros e provar cada uma delas, fazendo Stephen Hawking saltar de sua cadeira. Decidi pensar novos pensamentos, que fariam Platão desejar sua caverna e Kierkergaard repensar seu "conceito de ironia".

Decidi que, com tudo isso, vão me oferecer uma casa em Tahiti Beach em troca da minha participação em um dos episódios de “Life of Luxury”. Que as festas que vou promover nela, com Tiësto e Paul Van Dyk estapeando-se pelo controle das mesas, serão mais concorridas que as do Hugh Hefner, abalando sua eterna amizade com Leonardo DiCaprio e dispersando sua criação de coelhas.
Mas apesar dessa casa, decidi que Zaha Hadid vai se oferecer para projetar outra para mim. E que vou aceitar.

Decidi que graças a um curso de teatro vou ser contratado para a próxima franquia de sucesso: acima de todos os James Bond, Indiana Jones e Harry Potters que estão por aí. Decidi que, como escritor vencedor do Nobel, vou dar palpites no roteiro e tornar o filme de estréia o mais cotado para o Oscar. E que Charlie Kaufman vai me pedir uma dica ou outra para o seu próprio. Com isso vou ganhar as estatuetas de Melhor Ator e, claro, Roteirista… apesar de que só na cerimônia de 2007.

Ah, claro: como publicitário, a campanha de lançamento do meu blockbuster também será minha. E o Leão de ouro em Cannes por ela também.

Decidi que vou namorar a Liv Tyler. E/ou a Victoria Silvstedt. E/ou a Linda Fiorentino. E/ou a Salma Hayek. E/ou a Monica Bellucci. E/ou a Lara Flynn Boyle. E/ou a Helena Ranaldi. E/ou a Carolina Ferraz. E/ou a Aline Moraes. Não só essas. Não necessariamente nessa ordem. Não necessariamente uma de cada vez. E decidi que o amor delas por mim vai ser sincero.
Se não for, compro um que seja.

Decidi que vou descobrir o moto-contínuo, a cura para o câncer e a AIDS e a solução para a fome ná África, no Brasil e onde mais houver. Que meu discurso no recebimento do Oscar vai estabelecer a paz entre judeus e palestinos. Entre gregos e troianos. Entre Courtney Love, Chris Novoselic e Dave Grohl.

Ah, sim: vou encontrar Osama Bin Laden e descobrir o criador das "bonecas da morte". E saber qual é a pergunta cuja resposta é “42”.

Em minha entrevista no Jô Soares: “Com licença. Sou eu quem está falando.”

Decidi que vou começar um negócio numa área inovadora, nunca imaginada. Se você não faz ideia do que estou falando, é sinal de que estou no caminho certo.


Enfim, não sei o que você decidiu fazer no próximo ano. Mas, ao que parece, ser meu amigo pode ser uma grande idéia.
Feliz Ano Novo.

•••

21 de dez de 2005

:: Sudoku ::

E no meio da conversa, ela me disse que está com o coração fechado para qualquer nova aventura por pelo menos mais dois anos e meio. Dois anos e meio, repito. Indo além das minhas próprias, e confessas, intenções – sem contar com a dose de masoquismo inserida na questão – perguntei como seria isso, visto que, digamos, há sempre necessidades que urgem em qualquer ser humano que tenha em dia sua cota hormonal.

- Por agora, só fico com caras que eu saiba que não vão querer nada além.

Enquanto eu pensava no quanto será difícil tal tarefa para qualquer um desses, pensei também no que isto, enfim, representaria: em uma leitura final, que o beijo é a prova de que você não significa nada; ou, na mesma, que se eu não me qualifico para tal beijo é porque represento algo. Mas como posso ser mais significativo e ser este o motivo de não poder tê-la, ainda que não evoluísse para qualquer coisa “além”?

Como agir, ao querer alguém que não quer ser querido? Quando há que mostrar o próprio valor e, mostrado, ser isto o que mais afasta do objetivo final?

Ok. Sua vez de mostrar-me o caminho, ainda que não o queira, ainda que não perceba que o está fazendo: eis-me atento aos sinais. Em tempo: “desistir”, deve ter percebido, não é uma possibilidade… embora já o tenha feito no que diz respeito a lhe entender. Mas qual a graça de estar com alguém sobre quem tudo se entende?
•••

15 de dez de 2005

:: Standby ::

Muito a pensar. Muito pouco a dizer... ao menos por agora. A palavra proferida não volta atrás, lembra? (Ou a flecha, ou a oportunidade perdida.) Melhor saber o que dizer, quando achar que é hora, ainda mais sendo muito pouco, ainda mais havendo muito a pensar antes.

Reservo-me o direito ao silêncio, no qual o maior dos tolos pode passar como o maior dos sábios.

Entende?
Ao menos por agora.
•••


11 de dez de 2005

:: Dopping ::

Você não sabe o mal que me faz ao me querer tão bem.
Me odeie, para que eu possa esquecê-la.

Diga que me quer fora da sua vida, para que eu possa tentar seguir com a minha.
Peça-me para não procurá-la, para que, quem sabe, eu consiga me encontrar.
Mande que eu mude meu caminho se este cruzar com o seu. Talvez assim eu encontre um rumo para os meus dias.

Não me atenda ao telefone; peço mais, não o use para me alcançar. Se do tanto que tenho a dizer o que encerra nossas conversas ainda é o "adeus", deixe que eu fale sozinho àqueles que me fingem escutar.


•••


8 de dez de 2005

:: Replay ::

Esperava, deitado no sofá, que sua respiração me acordasse no meio da noite.

Cheguei a achar que a indiferença com que me tratava era o que, afinal, fazia a diferença entre mim e tantos outros.

Um convite aceito, uma porta aberta apenas para revelar que nada havia do outro lado.

E lembrar das histórias que contou, e ouvir que eu não estava em nenhuma delas. Saber que coisas aconteciam, mas que eu não estava presente quando o faziam. Pior saber que aconteciam, porque não aconteciam comigo.

Não propus mais do que achei ser possível, ainda sabendo que muito pouco me seria.

Não precisa apontar, com seu sorriso, a direção. Este caminho por onde se anda sozinho já passei por mais vezes do que gostaria de admitir.

•••


4 de dez de 2005

:: On-line ::

Ando cansado de acharem que tudo o que faço é por uma relação de causa e conseqüência. Que tudo é maquinado, de caso pensado, movimentos friamente calculados antecipando um possível futuro, como em um tabuleiro de xadrez.
Quisera eu ter inteligência a ponto de induzir outros a viver segundo as diretrizes que traço.

Impressiona que eu tenha tanta importância a ponto de ser assunto em rodas que nem mesmo freqüento. Que o que faço ou com quem ando seja relevante para pessoas que nem ao menos têm o número do meu telefone e que mal me cumprimentam quando encontro em um ou outro evento. Ainda assim, nas poucas palavras a mim dirigidas por elas, quase sempre está incluída a frase “aí Renato, já estou sabendo da novidade”. Novidade, vale dizer, que muitas vezes nem mesmo eu sei.

É a velha necessidade de projetar-se em um assunto alheio, uma vida alheia, uma especulação, para tentar fugir da mediocridade da própria vida. O que o outro faz, quanto mais mentirosa for a versão do ato, é sempre mais interessante que a rotina modorrenta a assombrar cada dia. Como disse Carlos Ruiz Zafón, “as pessoas estão dispostas a acreditar em qualquer coisa antes de acreditar na verdade”... principalmente na da própria vida. Aos plantonistas, se fazem tanta questão de saber, aviso que nada em meu comportamento vai mudar. O que pode mudar, então, talvez seja a direção dos seus holofotes. Deixo a sugestão que seja para a dos seus próprios assuntos.

•••