30 de jan de 2006

:: Timming ::

As pessoas não se conformam quando percebem que você não está mais à sua disposição.

Durante muito tempo ele estava na prateleira de algumas delas. Era o cara gente boa que, na falta de uma opção mais interessante, estava ali para quebrar o tédio de um sábado à noite. Ele ficava na expectativa de um telefonema que chegava apenas na manhã seguinte, geralmente maquiado de “tentei falar com você mas não consegui”. Os amigos costumavam alertá-lo: “rapaz, esquece essa garota, ela não vale a pena.” Mas ele era convincente o suficiente para enganar a si mesmo: “ela não conseguiu falar comigo.”
Na tal manhã seguinte, ainda ouvia a história de como a noite dela foi divertida, a respeito do cara com quem ela ficou (e se arrependeu) e de como quase bateu de carro quando voltava pela ponte Rio-Niterói. Ele, por dentro, ria com tristeza, já que sabia (sem que qualquer um dos dois tivesse a menor desconfiança) que o cara com quem ela ficou (e se arrependeu) era, também, o principal dos que lhe diziam “rapaz, esquece essa garota, ela não vale a pena”. Ele ouvia tudo em silêncio. Ao final, despediam-se com a promessa de que no próximo final de semana sairiam juntos, sem falta.

Ele não se deu conta de quando foi que começou a mudar. Não, claro, por causa dessa garota, mas por ver nela a repetição de tantos outros casos. Achava um absurdo quando os amigos davam certos tipos de conselho, ao mesmo tempo em que os via sempre muito bem acompanhados noite adentro.

Enfim, havia mesmo algo a fazer.

Um dia, mais por completo esgotamento que de caso pensado, deixou de atender a uma ligação dela. Viu o número na lista de “ligações perdidas”, mas não sentiu ânimo – que descobriu ser “vontade” – de retornar.

Ela ligou outra vez. Outra vez, ele não atendeu.

Na terceira vez, sim. A voz dela, engraçado, pareceu surpresa – mas não muito. Chamou-o para sair naquela noite. Ele disse que tudo bem, e se falariam mais tarde.

Foi ela quem ligou. Ele não estava com vontade de sair, e disse para deixarem para outro dia. Ela fez uma brincadeira qualquer, como “é, você já não liga mais pra mim”, e deixou o final da frase em suspense, querendo que ele a completasse. Ele completou sem completar: "outro dia a gente sai."

Ela, então, começou a mandar mensagens por e-mail, por telefone e a ligar. Às vezes se falavam, às vezes não. Quase sempre ele estava ocupado, e pedia que falassem depois. Às vezes falavam depois, às vezes não.

Passado mais ou menos um mês, ela perguntou se poderia ir à casa dele, conversar. Ele disse que sim, claro. Ela chegou às oito da noite, e falou por uma meia-hora. Disse que muita coisa tinha acontecido naquele mês, muito havia pensado, descobertas haviam sido feitas e vendas tiradas dos olhos: enfim, era ele quem ela queria, e ainda quer, muito. Disse que era, na verdade, quem sempre quis.Os olhos dela estavam mareados, fixos, esperando uma resposta.

Mas, à essa altura, ele já havia esquecido essa garota. Não valia a pena.
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24 de jan de 2006

:: Lacuna ::

Sofro miseravelmente com o timming.

Sou arrebatado repetidas vezes por paixões repentinas, das quais já fui uma em outros tempos. Ou seja, quando para elas sou hoje uma lembrança – e nem das mais vívidas – me comporto como quem vive o início do flerte.
Em outras ocasiões, tive o ímpeto de realizar grandes coisas. O problema é que a maneira certa de fazer as engrenagens começarem a movimentar-se nunca se apresentava. Quando enfim se ouvia algum ranger, o propósito dele já estava esquecido ou ultrapassado. Ou ambos.

Hoje vivi novamente esse problema, à mesa do restaurante: revi pessoas que conheci em outra era, outra vida – tempos que agora parecem tão remotos quanto aqueles onde fui Napoleão ou César, como todo mundo. Fui assaltado pelas lembranças inevitáveis, e pelos inevitáveis “e se”.

Acontece que o “e se” faz apenas amargurar o presente e embotar o futuro.

Há o que houve, só. O passado é imutável. Dizem que devemos aprender com ele, mas o remorso e o arrependimento às vezes roubam a atenção da lição. Me julgava tão esperto, tão sabedor de tudo, como se tudo na vida desse sempre uma segunda chance: mal resolvido agora, resolve-se depois. A questão é que o nosso depois não é o mesmo depois dos outros: nossos blackouts não são janelas para voltar no tempo e refazer a vida, por mais que Ashton Kutcher pareça fazer isso com a maior facilidade.

Mas o tal do tempo, pretenso professor, ignora as provas de recuperação. Para quem diz que ele cura tudo, digo que pode também fazer resistir lembranças para muito além do que resiste nossa saúde.
Melhor prestar atenção naquelas que estão sendo armazenadas.

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19 de jan de 2006

:: Simbiose ::

Poucas coisas são piores do que depender de outros para o que quer que seja. Principalmente quando esses outros se apresentam submersos em terno, gravata e meia-dúzia de termos coletados na Wikipedia. Não se pode mesmo contar com o ovo dentro da galinha: descobri que há quem consiga que elas desistam de botá-los.

Peço, então, a atenção de "quem":

Primeiro: não ensine o que o outro já sabe. Principalmente usando as mesmas palavras que ele, quando abordou o assunto com você.

Segundo: lembre-se, você não está na faculdade.

Terceiro: não é por ter funcionado com uma pessoa que a mesma estratégia vai funcionar com outra. Se fosse assim, eu estaria em lua-de-mel com a Laetitia Casta.

Quarto: dos quarenta sabores do Sem Nome, os mais vendidos eram sempre os mesmos 4.

É isso. Scott Adams deveria ganhar o Nobel.

Deixo um adendo aos que não são "quem" e que se dispuserem a ler: se há algo que você quer fazer e não depende de outra pessoa, faça. Por mais que seja melhor, mais confortável, mais barato ou mais qualquer coisa fazer com ela.


O tempo passa mais rápido do que parece, e não há nenhum a gastar com retardatários.

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16 de jan de 2006

:: Reanto Atl ::

Quero ser corrigível no Google.

“Você quis dizer: Renato Alt

Gosto de observar as reações das pessoas quando estão lendo. Na verdade, gosto simplesmente de ver que as há. Se percebo alguma - seja um sorriso, um suspiro, uma cara de nojo – dou um jeito de descobrir qual é a leitura. Depois, de descobrir quem é o autor que conseguiu arrancar, de um completo desconhecido, um sorriso, um suspiro ou uma cara de nojo.

Daí é o Google quem segue.

É fácil lembrar do som de alguns nomes, mas colocá-los por escrito nem sempre é. O mestre do suspense, por exemplo, é Alfred o quê? Ou arrisque soletrar o último nome do diretor de “O Sexto Sentido”. Trabalho hercúleo.

O ponto é que o que ambos fizeram desperta interesse. “Como é mesmo o nome do autor daquela obra?” Então entramos no Google, escrevemos errado e somos corrigidos, felizes da vida: encontramos.

“Você quis dizer: Os Irmãos Karamazov

Como descobrir o que querem as pessoas que se dispõem a ler o que outro escreve? Seria algo que as tira da rotina ou que a retratem com perfeição, de maneira a gerar aquele sentimento de cumplicidade? Como encontrar esse denominador comum? Mesmo aqui, num espaço tão restrito e praticamente desconhecido como um blog, um mesmo texto mostra-se ao mesmo tempo inteligente para uns e completamente desinteressante para outros. Capaz de gerar elogios com a mesma velocidade com que gera comentários, digamos, não tão simpáticos.

Faço dos textos minha alquimia. Mas o quanto ainda falta para que o chumbo vire ouro, no entanto, cabe somente aos outros dizer.

“Você quis dizer: Renato Alt

Click.

“Resultados 1 - 10 de aproximadamente 500.000.000 para Renato Alt (0,08 segundos)”


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10 de jan de 2006

:: Sir ::

As pessoas estão começando a me tratar por “senhor”.

Sempre me senti mais velho que minha idade. Agora o quadro está se invertendo mais rápido do que eu gostaria. Ou, ao menos, do que esperava. Achava chato quando, nos sempre fantásticos papos de elevador, me perguntavam o que eu estava estudando ou, no máximo, alguma coisa sobre futebol.Não lembro quando foi que o assunto mudou para o panorama político do país; mas me assustei quando passou a ser sobre os governos anteriores e o quanto eram diferentes do atual. Por pouco não fantasiei que os políticos de então eram honestos, como Mary Schmich previu que eu faria um dia. Percebi, então, que algumas das minhas lembranças têm a mesma idade de uma pessoa adulta, que já é capaz de pensar, amar, constituir família e de se sentir mais velha que si mesma.

Fiquei escaldado. Comecei a me sentir perseguido pelo fantasma dos anos, como foi o "seu Feliciano", personagem de um antigo anúncio de remédio.À aeromoça, pedi um analgésico.

“O senhor precisa me dizer qual quer, porque não podemos estar medicando os passageiros”. Pensei em pedir um que não interagisse mal com Viagra, mas fiquei com medo de que ela não entendesse a brincadeira. Ou pior, que me considerasse um “babão”.

Continua:

“Senhor, sua mala vai ser despachada na esteira 7.”
“O canal `nada a declarar´ é à direita, senhor.”

Com amigos, no bar:
“Os senhores vão querer mais alguma coisa?”
- Depois dessa, a conta.

E há, claro, as várias outras formas de dizer a mesma coisa: “tio”, por exemplo. Mas enquanto não for chamado assim por aquelas a quem convido para sair, existe esperança.

Resta a cena do teatro:

-Desculpe, senhor, mas este lugar está ocupado – disse a moça, me olhando com ar meio sem-graça.

Respondi que não tinha problema, com um bom-humor que a surpreendeu. É que, em meus pensamentos, estava grato por ela não ter se levantado me oferecendo o seu.

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