24 de jan de 2006

:: Lacuna ::

Sofro miseravelmente com o timming.

Sou arrebatado repetidas vezes por paixões repentinas, das quais já fui uma em outros tempos. Ou seja, quando para elas sou hoje uma lembrança – e nem das mais vívidas – me comporto como quem vive o início do flerte.
Em outras ocasiões, tive o ímpeto de realizar grandes coisas. O problema é que a maneira certa de fazer as engrenagens começarem a movimentar-se nunca se apresentava. Quando enfim se ouvia algum ranger, o propósito dele já estava esquecido ou ultrapassado. Ou ambos.

Hoje vivi novamente esse problema, à mesa do restaurante: revi pessoas que conheci em outra era, outra vida – tempos que agora parecem tão remotos quanto aqueles onde fui Napoleão ou César, como todo mundo. Fui assaltado pelas lembranças inevitáveis, e pelos inevitáveis “e se”.

Acontece que o “e se” faz apenas amargurar o presente e embotar o futuro.

Há o que houve, só. O passado é imutável. Dizem que devemos aprender com ele, mas o remorso e o arrependimento às vezes roubam a atenção da lição. Me julgava tão esperto, tão sabedor de tudo, como se tudo na vida desse sempre uma segunda chance: mal resolvido agora, resolve-se depois. A questão é que o nosso depois não é o mesmo depois dos outros: nossos blackouts não são janelas para voltar no tempo e refazer a vida, por mais que Ashton Kutcher pareça fazer isso com a maior facilidade.

Mas o tal do tempo, pretenso professor, ignora as provas de recuperação. Para quem diz que ele cura tudo, digo que pode também fazer resistir lembranças para muito além do que resiste nossa saúde.
Melhor prestar atenção naquelas que estão sendo armazenadas.

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