10 de jan de 2006

:: Sir ::

As pessoas estão começando a me tratar por “senhor”.

Sempre me senti mais velho que minha idade. Agora o quadro está se invertendo mais rápido do que eu gostaria. Ou, ao menos, do que esperava. Achava chato quando, nos sempre fantásticos papos de elevador, me perguntavam o que eu estava estudando ou, no máximo, alguma coisa sobre futebol.Não lembro quando foi que o assunto mudou para o panorama político do país; mas me assustei quando passou a ser sobre os governos anteriores e o quanto eram diferentes do atual. Por pouco não fantasiei que os políticos de então eram honestos, como Mary Schmich previu que eu faria um dia. Percebi, então, que algumas das minhas lembranças têm a mesma idade de uma pessoa adulta, que já é capaz de pensar, amar, constituir família e de se sentir mais velha que si mesma.

Fiquei escaldado. Comecei a me sentir perseguido pelo fantasma dos anos, como foi o "seu Feliciano", personagem de um antigo anúncio de remédio.À aeromoça, pedi um analgésico.

“O senhor precisa me dizer qual quer, porque não podemos estar medicando os passageiros”. Pensei em pedir um que não interagisse mal com Viagra, mas fiquei com medo de que ela não entendesse a brincadeira. Ou pior, que me considerasse um “babão”.

Continua:

“Senhor, sua mala vai ser despachada na esteira 7.”
“O canal `nada a declarar´ é à direita, senhor.”

Com amigos, no bar:
“Os senhores vão querer mais alguma coisa?”
- Depois dessa, a conta.

E há, claro, as várias outras formas de dizer a mesma coisa: “tio”, por exemplo. Mas enquanto não for chamado assim por aquelas a quem convido para sair, existe esperança.

Resta a cena do teatro:

-Desculpe, senhor, mas este lugar está ocupado – disse a moça, me olhando com ar meio sem-graça.

Respondi que não tinha problema, com um bom-humor que a surpreendeu. É que, em meus pensamentos, estava grato por ela não ter se levantado me oferecendo o seu.

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