24 de fev de 2006

:: Vento ::

Procuro desesperadamente por um defeito em você que me convença de que foi melhor lhe ver escapar por entre meus dedos, ainda que eu nunca tenha, de fato, segurado-a em minhas mãos.

Você não tem tornado a tarefa fácil.

Sinto um ciúme terrível de tudo aquilo que não é meu. E quando vejo esse abismo de amizade tornando-se cada vez maior, grito afônico ao me dar conta de que acabamos por ficar em lados diferentes.

Curioso como todo mundo parece sempre saber o que fazer em situações como essa. Abundam conselhos. Mas quem vê de fora as vidas dos conselheiros enxerga nelas tanto mais do que eles próprios que se torna difícil dar crédito às palavras. Além do mais, é fácil dizer “não se apaixone” quando o coração em questão é o de outro ou “não ligue” quando não é o seu telefone que está mudo.

Ando cansado de jogar. Talvez nunca tenha aprendido as regras. Me confunde o despreze para ser valorizado, o não procure para que sinta a falta, o não elogie para não ficar em suas mãos.

Mas regras são regras, aceite-as ou não, aprenda-as ou não.

Preparo-me para ouvir dos meus conselheiros que não deveria ter escrito nada disto aqui. É outra coisa fácil de se dizer quando as palavras que exigem liberdade estão em outros olhos.

Já no meu caso, também elas me escapam pelos dedos.

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17 de fev de 2006

:: Spring Cleaning ::

Acompanhei na Oprah a história de uma mulher com um distúrbio psicológico ao qual chamaram Acumulação Compulsiva: ela é incapaz de jogar qualquer coisa fora, de papéis a restos de comida, o que torna sua casa intransitável. E quando digo "incapaz de jogar qualquer coisa fora", quero realmente dizer qualquer coisa. Deixo a cargo da imaginação de vocês definir o que isso significa.

Na garagem da casa, o médico que a foi visitar encontrou um pé de meia comprado havia quatro anos, cujo par perdeu-se no caos, mas que não foi jogado fora porque sua dona temia acabar por encontrar o tal par. Ou, ainda que não o encontrasse (“ainda que”, mesmo depois de quatro anos!), poderia usar o que restou como guarda-pó ou algo do tipo.

A sala e a cozinha são indescritíveis. O banheiro, ainda que fosse descritível, faltaria estômago para fazê-lo.

A equipe do programa destacou equipes para limpar e organizar toda a casa, enquanto a mulher passou a receber acompanhamento psicológico. Alguns meses depois a equipe retornou ao lugar. O caos estava, novamente, estabelecido: ainda que por fora a casa conservasse seu bom aspecto, o interior era Phuket pós-Tsunamis.

Tenho conhecido pessoas com problema semelhante ultimamente. Incapazes de esquecer relacionamentos terminados há mais tempo do que duraram ou de relevar uma palavra atravessada que ouviram de um amigo em um momento de impaciência. Pessoas que acham que não podem seguir um caminho diferente porque aos dezesseis anos optaram por uma carreira e se sentem presos a ela (ainda que não dependam financeiramente dela) e que não admitem estarem magoadas com outras porque isso demonstraria fragilidade: e demonstrar, hoje em dia, é palavra proibida. Assim, preferem acumular raiva, decepção e amores não-declarados, preferem não revelar afetividade ou se permitir sentir. E, em meio a tudo isso, desaparecem em si mesmas, procurando eternamente o pé de meia que se perdeu.

Aquele que restou, acredite, nunca será usado como guarda-pó. Nunca será usado como qualquer outra coisa.É hora de enfim jogá-lo fora.

De mim, posso apenas dizer que estou organizando meu “bota-fora de garagem”.

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13 de fev de 2006

:: O Espelho ::

Tenho a mesma altura de quando tinha 15 anos. Meu aumento de estatura parou antes do que eu queria, mas a imaginação, acredito, continua crescendo para além do que deveria. Penso manter a mesma atitude diante do mundo, além das mesmas ambições que me acompanham desde antes disso: continuo achando que posso ser astronauta ou bombeiro, ainda que um dos maiores medos da minha infância tenha sido perder-me no espaço. É sério.

(Ok, ainda é uma idéia que me assusta.)

Acabei sendo educado a pensar como adulto. A me comportar como adulto, ainda que não me sinta como adulto (e, por dizer isto, provavelmente algumas pessoas vão começar a questionar se sou alguém que vale a pena ter por perto). Numa época onde a infância é sistematicamente mutilada pelas próprias crianças, não é exatamente algo muito producente a ser dito.

Abrir mão do que existe de infantil em nós é basicamente abrir mão de sonhar. Tornar-se adulto virou sinônimo de racionalizar, deixar de acreditar na fantasia, ainda que todos nos encantemos com Neil Gaiman ou Tolkien. Tomamos por ridículos aqueles que pensam e enxergam o mundo além da lógica e dos regimentos sociais, enquanto nossa essência se perde a cada criança que descobre que são os pais que deixam os presentes sob a árvore de Natal.

Não finjo ser alguém preparado para enfrentar o mundo como ele quer se mostrar (e sei que outra grande parte das pessoas que ainda achavam que eu era alguém que valia a pena ter por perto acaba de mudar de idéia); ainda fantasio, ainda sonho, ainda enxergo mais nas sombras do que a simples ausência de luz; ainda penso no que ocorreu durante os milhares de anos que a de uma supernova (possivelmente já extinta) levou para enfim ser vista por nós aqui, e viajo nas distâncias instransponíveis que nos separam dela. Prefiro pensar que há dimensões paralelas de onde somos observados, e que não há explicação para a construção das pirâmides ou sobre a origem dos moais. Não procuro, e nem quero, encontrar a lógica em tudo.

À porcentagem de pessoas que descobriu que não sou alguém que vale a pena ter por perto, digo que fique à vontade para encontrar outros pares. Pra mim, o que sempre houve são os 100% que restam.

Nem tudo o que eu penso é construtivo. Nem tudo é útil. Nem tudo é sequer coerente.
Espero preservar-me assim durante mais tempo do que a sociedade exige, ao invés de tornar-me um autômato com a simples finalidade de gerar recursos.

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10 de fev de 2006

:: Caulfield ::

Recentemente ouvi de uma amiga que um dos pontos positivos que tenho em relação a começar um novo relacionamento com uma garota é que sou “um cara mais velho”. Há que pensar.

Falei recentemente sobre isso em outro post, e agora o assunto vem à tona outra vez. Seria o começo de uma obsessão? Será que vou virar uma dessas pessoas que usam a foto do dia da formatura do 2º Grau no profile do Orkut?

(Falando nisso, alguém viu “Procura-se um amor que goste de cachorros”?)

Conheci uma pessoa na praia que há quatro aniversários completa quarenta anos. É um homem e tem menos que isso, mas alega ser bom ouvir que está “conservado” e diz que quando enfim chegar mesmo aos quarenta já vai estar tão acostumado aos comentários sobre a idade que será muito mais fácil para ele começar a quarta década de vida.
Já eu, este ano, alcanço os 30. Ando um pouco preocupado, já que sempre ouvi falar que há uma crise que cerca essa idade e, por causa disso, sei que estou me condicionando a um período de bad mood todo especial às voltas da data (que, via de regra, não é mesmo a época mais feliz do ano). Esse período parece se antecipar quando me vêm lembranças como a de que Washington Oliveto conquistou seu primeiro Leão em Cannes aos 17 anos ou que Christopher Paolini já era autor de um best seller aos 19.

Uma sociedade que nos cobra aos 16 anos uma resposta a respeito do que vamos fazer durante todos os outros que restam (em outras palavras, como nos mostraremos úteis) só pode mesmo gerar pessoas potencialmente insatisfeitas com as escolhas que fazem (ou que fizeram para elas) e aumentar as vendas de antiácidos.

Até quando é socialmente aceitável não ter bem certeza do que se quer fazer da vida? Seja como for, prefiro pensar que as possibilidades sempre existem, e que continuam disponíveis.

Se novos horizontes despontam, explore-os.
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3 de fev de 2006

:: Classificados ::

Vendo um rim.
Bem cuidado, hidratado. Nunca produziu pedras, nunca atingido por golpe violento. Nunca sobrecarregado. Mantém a pressão arterial sob controle, o que é muito importante principalmente quando a gente já vem recebendo outros tipos de pressão que não há rim que dê jeito.

Vendo também o olho esquerdo, com córnea perfeita. Já me mostrou coisas que preferia não ter visto, mas que de alguma forma trouxeram maturidade. Mostrou também outras maravilhosas, que vieram e foram, e ainda outras que o fizeram ter discussões sérias com a razão. Poderia dizer que funciona bem até demais, apesar dos três graus de miopia que me acompanham desde a adolescência. Por causa disso, faço até uma promoção: quem comprar leva grátis a esclera e uma caixa de lentes descartáveis. Se as tirar para dormir, cada par pode durar um mês.

Vendo um fígado com pouco uso. Artigo raro, numa geração que cresceu alcoolizada pelo Biotônico Fontoura e que já não distingue a noite de sexta-feira de qualquer outra noite da semana. Não resisto a uma taça de vinho aqui e outra ali, mas para um órgão que alardeia ser o único que se reconstitui, não há de ser problema. Pensando bem, acho que este é um artigo que merece ir a leilão.


Vendo pulmão. Um pouco prejudicado, é verdade, por causa da vida em uma grande cidade (ou pretensamente uma) e por alguns anos como fumante passivo. Mas como férias sempre foram sagradas demais para serem vendidas, os meses em ambientes menos estressantes garantem a ele uma qualidade bastante competitiva. Inclusive por ter feito na infância exercícios infindáveis, soprando tubos para levar água de um recipiente para outro, num esforço que só me faz acreditar que estava numa pegadinha.

Vendo os ossos do ouvido interno. Acostumados a boa música, ainda que ao meu entender isso possa ser desde Rachmaninoff até Motorhead. Nunca acostumado a grosserias, ainda que muitas vezes tenha ouvido o que não quer por causa de uma boca que diz o que quer.

Vendo a pele. Não tem o apelo de uma à Ronald Pagnani, mas que por outro lado foi cultivada com doses moderadas de sol e praticamente não carrega cicatrizes. Vê-la em outra pessoa pode ser a chance de descobrir se a tão falada “questão de pele” é de fato da própria ou de quem está dentro dela.

Vendo a cartilagem costal, a crista ilíaca, a fascia lata, a cabeça do fêmur e os ossos longos, nenhum deles fraturados até hoje.

Vendo também as três válvulas cardíacas. Mas o próprio, o coração... Esse vou guardar. Hoje em dia parece que ninguém o quer nem de graça.
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