3 de fev de 2006

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Vendo um rim.
Bem cuidado, hidratado. Nunca produziu pedras, nunca atingido por golpe violento. Nunca sobrecarregado. Mantém a pressão arterial sob controle, o que é muito importante principalmente quando a gente já vem recebendo outros tipos de pressão que não há rim que dê jeito.

Vendo também o olho esquerdo, com córnea perfeita. Já me mostrou coisas que preferia não ter visto, mas que de alguma forma trouxeram maturidade. Mostrou também outras maravilhosas, que vieram e foram, e ainda outras que o fizeram ter discussões sérias com a razão. Poderia dizer que funciona bem até demais, apesar dos três graus de miopia que me acompanham desde a adolescência. Por causa disso, faço até uma promoção: quem comprar leva grátis a esclera e uma caixa de lentes descartáveis. Se as tirar para dormir, cada par pode durar um mês.

Vendo um fígado com pouco uso. Artigo raro, numa geração que cresceu alcoolizada pelo Biotônico Fontoura e que já não distingue a noite de sexta-feira de qualquer outra noite da semana. Não resisto a uma taça de vinho aqui e outra ali, mas para um órgão que alardeia ser o único que se reconstitui, não há de ser problema. Pensando bem, acho que este é um artigo que merece ir a leilão.


Vendo pulmão. Um pouco prejudicado, é verdade, por causa da vida em uma grande cidade (ou pretensamente uma) e por alguns anos como fumante passivo. Mas como férias sempre foram sagradas demais para serem vendidas, os meses em ambientes menos estressantes garantem a ele uma qualidade bastante competitiva. Inclusive por ter feito na infância exercícios infindáveis, soprando tubos para levar água de um recipiente para outro, num esforço que só me faz acreditar que estava numa pegadinha.

Vendo os ossos do ouvido interno. Acostumados a boa música, ainda que ao meu entender isso possa ser desde Rachmaninoff até Motorhead. Nunca acostumado a grosserias, ainda que muitas vezes tenha ouvido o que não quer por causa de uma boca que diz o que quer.

Vendo a pele. Não tem o apelo de uma à Ronald Pagnani, mas que por outro lado foi cultivada com doses moderadas de sol e praticamente não carrega cicatrizes. Vê-la em outra pessoa pode ser a chance de descobrir se a tão falada “questão de pele” é de fato da própria ou de quem está dentro dela.

Vendo a cartilagem costal, a crista ilíaca, a fascia lata, a cabeça do fêmur e os ossos longos, nenhum deles fraturados até hoje.

Vendo também as três válvulas cardíacas. Mas o próprio, o coração... Esse vou guardar. Hoje em dia parece que ninguém o quer nem de graça.
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3 comentários:

anônima! (ah....vc sabe quem é, né?) disse...

Muuuuuito bom Reanto Atl!!!

Fugindo um pouco da moral de história...lembrei das discussões q eu tenho com meu irmão dizendo que tenho direito de vender um rim já que é meu e ele tenta me convencer que é crime. hahahhaha

Renata disse...

Nossa...

Nádia disse...

Sem comentários na verdade.
Só pra não estragar..rs