17 de fev de 2006

:: Spring Cleaning ::

Acompanhei na Oprah a história de uma mulher com um distúrbio psicológico ao qual chamaram Acumulação Compulsiva: ela é incapaz de jogar qualquer coisa fora, de papéis a restos de comida, o que torna sua casa intransitável. E quando digo "incapaz de jogar qualquer coisa fora", quero realmente dizer qualquer coisa. Deixo a cargo da imaginação de vocês definir o que isso significa.

Na garagem da casa, o médico que a foi visitar encontrou um pé de meia comprado havia quatro anos, cujo par perdeu-se no caos, mas que não foi jogado fora porque sua dona temia acabar por encontrar o tal par. Ou, ainda que não o encontrasse (“ainda que”, mesmo depois de quatro anos!), poderia usar o que restou como guarda-pó ou algo do tipo.

A sala e a cozinha são indescritíveis. O banheiro, ainda que fosse descritível, faltaria estômago para fazê-lo.

A equipe do programa destacou equipes para limpar e organizar toda a casa, enquanto a mulher passou a receber acompanhamento psicológico. Alguns meses depois a equipe retornou ao lugar. O caos estava, novamente, estabelecido: ainda que por fora a casa conservasse seu bom aspecto, o interior era Phuket pós-Tsunamis.

Tenho conhecido pessoas com problema semelhante ultimamente. Incapazes de esquecer relacionamentos terminados há mais tempo do que duraram ou de relevar uma palavra atravessada que ouviram de um amigo em um momento de impaciência. Pessoas que acham que não podem seguir um caminho diferente porque aos dezesseis anos optaram por uma carreira e se sentem presos a ela (ainda que não dependam financeiramente dela) e que não admitem estarem magoadas com outras porque isso demonstraria fragilidade: e demonstrar, hoje em dia, é palavra proibida. Assim, preferem acumular raiva, decepção e amores não-declarados, preferem não revelar afetividade ou se permitir sentir. E, em meio a tudo isso, desaparecem em si mesmas, procurando eternamente o pé de meia que se perdeu.

Aquele que restou, acredite, nunca será usado como guarda-pó. Nunca será usado como qualquer outra coisa.É hora de enfim jogá-lo fora.

De mim, posso apenas dizer que estou organizando meu “bota-fora de garagem”.

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Um comentário:

fm disse...

seu txt é excelent, e trata d uma questão muito séria. acontec q gent d sonhos atrofiados, q definhou a ponto d ñ + aspirar, tem na esperança de encontrar o par da meia a única razão d viver. pena. mas c o seu talento e empatia vc pod ainda salvar aqueles q empacaram no processo. boa sort