27 de mar de 2006

:: Cisão ::

Odeio que me peçam explicações, principalmente quando não há pelo quê.

Menos ainda quando é alguém que nem deveria ter me pedido qualquer uma.

Mas há aqueles que perguntam “aonde vai?”, para dizer “não vá”, apenas porque não podem, eles, ir. Há os que perguntam “onde esteve?”, para dizer “como pôde?”, sem confessar nem para si mesmos que gostariam de também ter estado lá. Questionam o que foi dito, sugerindo que as palavras fossem outras, ainda que, no fundo, concordem com as verdades ditas por outros.

É o falar pelo falar, o pensar mais do que deveriam sobre assuntos que não lhes dizem respeito.

Já não ouço pessoas que escondem-se de si mesmas destilando todos os seus conceitos de verdade em cima das atitudes dos outros. E que, em algum ponto, já confundem sinceridade com grosseria, personalidade com inflexibilidade e opinião própria com uma eterna discordância de todos os que estão à sua volta. Não importa o assunto, importa apontar na direção oposta.

(E se ouvirem na voz de outro a opinião que trouxeram consigo, mudam-na de imediato.)

Incomoda quando o reflexo no espelho é o seu, não?

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22 de mar de 2006

:: Gestalt ::

Que importam meus objetivos ou se já não sorrio quando a vejo? Ao que chegamos, chegamos trazidos por você, e eu apenas cumpri-lhe a vontade. Parece que só o que quer ao ver minhas reações é coletar material para dizer depois, aos outros, o quanto eu fui isso ou aquilo quando a vi.

A história já acabou há tempos, mas eis você tentando desde lá escrever um posfácio sem fim. E não satisfeita em sentar à sombra da própria vida, esforça-se por ver a minha empacada durante tanto tempo quanto conseguir. Tudo por causa da sua dificuldade em aceitar que não sou dependente seu (como sempre achou) e que posso viver muito bem, na verdade melhor, de agora em diante. Imagino que em seu séquito, vez por outra, ecoe um “como ele pode ser assim?”, na voz de alguém que não sabe da missa a metade e que, mais ainda, nem pretende saber. Em sua lógica, foi uma sábia escolha de amigos.

Nutrida disso, justificados estão os devaneios que ocupam-lhe as noites de sexta-feira e a ressaca moral que o sábado exige por eles.

Não sou sua desculpa perfeita para não seguir em frente. Não sou ou fui tão significativo em sua vida a ponto de ser o ponto nevrálgico dos seus 50 minutos semanais de análise... ou pelo menos você nunca demonstrou. No final, acaba por dar no mesmo.

Não cobre de mim o preço por aquilo que nunca me ofertou.


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17 de mar de 2006

:: In Vitro ::

O medo que muitas pessoas têm de fazer algo diferente daquilo que se convenceram ser sua função pelo resto da vida as leva a aconselhar erroneamente outras, que pensam haver mais possibilidades do que seguir na fila com o restante das formigas. Medo esse que se confunde com a falta de coragem de levar adiante os próprios sonhos, já sufocados sob toneladas de conveniência.

Sonhos raramente enquadram-se em convenções.

Para 2006, tomei uma série de decisões que externei para pouquíssimas pessoas. Nenhuma dessas decisões está no texto que postei aqui no Ano Novo – e isso não porque o plagiei, como tantas pessoas acusaram-me de ter feito antes mesmo de procurar se informar, mas porque sei que as sugestões para que eu não as levasse adiante seriam tantas que eu me arrependeria do momento em que abri a boca para dizer quais são.

Aquelas para quem contei já foram quase o suficiente para esse arrependimento. Claro que houve quem aprovasse e incentivasse, mas não faltaram palavras contrárias, reprovações veladas e, pior, falsas aprovações. Acho que quase todas supuseram que eu estava falando da boca pra fora – prova de que não me conhecem como pensava. Agora que tudo começa a acontecer, o que perguntam é se vou realmente levar a sério "essas idéias".

Claro que vou.

Percebi que se há algo que queremos fazer e que não depende de muito mais do que nossa própria iniciativa para acontecer, é urgente fazê-lo. O ser humano está em constante busca de aprovação, uma vez que fomos condicionados a viver nessa busca, mas nossa realização pessoal dificilmente vai passar pelo crivo daqueles que nos cercam. Ainda que mais à frente o caminho pareça não ter levado a lugar algum, ao menos vai silenciar a eterna voz sussurrando “e se” em nossos ouvidos. Deixe que ela vá ocupar-se com outra pessoa... provavelmente uma das que antes chamavam-nos "loucos". Do que adianta o acordar-trabalhar-dormir-acordar se disso não pudermos tirar alguma coisa que seja realmente para nós, algo que seja mais que pagar pelo direito de existir? Qual o propósito?

Sigo adiante com minhas loucuras. Nunca fiz mesmo questão de parecer são.
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9 de mar de 2006

:: Boomerang ::

Engraçado como todo mundo tenta definir a si mesmo usando definições dadas por outros. Assim, definem-se para os outros, mas continuam sem saber quem são.

Pensando bem, isso já perdeu a graça.

Hoje, não basta dizer que sou homem. Tenho que dizer se sou Emo, Über, New-broke ou Metrosexual.

(Só o que sei é que não tenho altura suficiente para ser do último grupo.)

Também não basta dizer que gosto de rock. Tenho que dizer se falo de Glam, New-Metal, Pop, Metal Core, British Pop, Alternativo ou outra infinidade de classificações. Quando é o caso de dizer que estou comprometido, preciso dizer se esse é um relacionamento aberto ou não.

Me parece que as pessoas têm a impressão de que é mais fácil encontrar-se quando existem opções para definir especificamente um gosto, uma atitude. Penso o contrário: quanto mais opções, mas fácil é ver a própria identidade diluir-se, tornar-se rarefeita. Ninguém precisa pensar nos próprios valores quando tudo é aceito, tudo é permitido, tudo é classificado e classificável; como se a criação de um termo para definir um comportamento qualquer já fosse o suficiente para legitimá-lo.

Fique com quem quiser, transe com quem quiser, bata em quem quiser, coma, beba, use drogas. Faça tudo ao mesmo tempo. Logo vai aparecer alguém e dizer a palavra mágica, aquela que vai fazer você concluir que se agiu assim é porque é assim mesmo que tal tipo de pessoa age. No final, ninguém mais precisa mudar o próprio modus vivendi.

Depois todos reclamam que a sociedade perdeu seu rumo, suas referências. Perguntam uns aos outros “onde é que vamos parar?” entre uma garfada e outra no jantar.

Vejo a mim mesmo como alguém que não usa antolhos, mas penso que o excesso de normalidade tem nos causado mais prejuízos do que a famigerada Lei de Gérson. Até porque essa fica só entre nós, brasileiros.


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5 de mar de 2006

:: Cheshire ::

“As I was walking up the stairs,
I saw a man who wasn´t there.
He wasn't there again today
Oh how I wish he'd go away.”
- Ogden Nash



Às vezes tenho a impressão de não estar aqui. De não enxergar as coisas como as outras pessoas enxergam, de não sentir os mesmos sabores, discernir as mesmas cores ou ouvir nas músicas as mesmas melodias que todos. Sinto-me pairando no ar, como se observasse tudo de uma dimensão paralela.

Tenho essa sensação desde sempre. E durante muito tempo culpei-me por me sentir assim. Lembro de, numa das viagens que fiz com amigos, ouvir Mr. Jones saindo trôpego do violão no camping e ainda assim conseguir arrebatar todos os habitantes das barracas vizinhas em um espírito de jovialidade e carpe diem ao qual eu simplesmente não conseguia me juntar. Cobrava de mim mesmo uma mudança de atitude, de postura, ou qualquer coisa que me tirasse da condição de anormalidade na qual me convenci estar jogado. De onde vinha a alegria que as pessoas transpareciam, o fôlego que gastavam nas estrofes gigantes que os Countig Crows compuseram sem dó ou os sorrisos que trocavam com quem nem conheciam e que, muitas vezes, rendiam para bem além disso?

Algumas vezes conseguia cruzar o portal dimensional, sentir-me participante e, aliviado, ver que também era percebido. Em outras tentei sorrir sem sentir vontade, falar sem sentir vontade, cantar sem sentir vontade e sentir sem sentir vontade. Mas nunca fui bom em fazer coisas que não tinha vontade ou em sussurrar um sentimento quando é outro que grita.

Cheguei a questionar se todos não se sentiam como eu mas, ao contrário de mim, sabiam fingir muito bem que não. Obviamente, há que viver o momento, o prazer das pequenas coisas; no final das contas, a vida é muito mais simples do que costumamos admitir. Mas a ditadura do sorriso em que vivemos desvia a pessoa de quem ela de fato é. Afinal, que melhor artifício do que um esgar de dentes para esconder a tristeza?

Engraçado é ouvir desde o camping até hoje que, por agir assim, me exponho demais. Recentemente fui crucificado por não fingir estar bem em uma situação em que era óbvio que eu jamais poderia estar bem. Qual o sentido disso? Ao menos sei que todas as vezes em que sorri, cantei e senti foram autênticas; e que, por isso, quando os sorrisos renderam para bem além, vivi momentos que foram muito mais significativos para mim até mesmo do que para quem estava comigo.

Hoje, Bob Sinclair, Jack Johnson e outros cantores de um eterno verão ensolarado também provocam em mim os mesmos sintomas. É um incômodo com o qual tive que aprender a viver, como John Nash aprendeu a viver seguido por seus amigos imaginários. Felizmente sei que, como saldo de tudo isso, acabo por me cercar do tipo de pessoas considero valer a pena: muito mais reais do que a grande maioria.

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