5 de mar de 2006

:: Cheshire ::

“As I was walking up the stairs,
I saw a man who wasn´t there.
He wasn't there again today
Oh how I wish he'd go away.”
- Ogden Nash



Às vezes tenho a impressão de não estar aqui. De não enxergar as coisas como as outras pessoas enxergam, de não sentir os mesmos sabores, discernir as mesmas cores ou ouvir nas músicas as mesmas melodias que todos. Sinto-me pairando no ar, como se observasse tudo de uma dimensão paralela.

Tenho essa sensação desde sempre. E durante muito tempo culpei-me por me sentir assim. Lembro de, numa das viagens que fiz com amigos, ouvir Mr. Jones saindo trôpego do violão no camping e ainda assim conseguir arrebatar todos os habitantes das barracas vizinhas em um espírito de jovialidade e carpe diem ao qual eu simplesmente não conseguia me juntar. Cobrava de mim mesmo uma mudança de atitude, de postura, ou qualquer coisa que me tirasse da condição de anormalidade na qual me convenci estar jogado. De onde vinha a alegria que as pessoas transpareciam, o fôlego que gastavam nas estrofes gigantes que os Countig Crows compuseram sem dó ou os sorrisos que trocavam com quem nem conheciam e que, muitas vezes, rendiam para bem além disso?

Algumas vezes conseguia cruzar o portal dimensional, sentir-me participante e, aliviado, ver que também era percebido. Em outras tentei sorrir sem sentir vontade, falar sem sentir vontade, cantar sem sentir vontade e sentir sem sentir vontade. Mas nunca fui bom em fazer coisas que não tinha vontade ou em sussurrar um sentimento quando é outro que grita.

Cheguei a questionar se todos não se sentiam como eu mas, ao contrário de mim, sabiam fingir muito bem que não. Obviamente, há que viver o momento, o prazer das pequenas coisas; no final das contas, a vida é muito mais simples do que costumamos admitir. Mas a ditadura do sorriso em que vivemos desvia a pessoa de quem ela de fato é. Afinal, que melhor artifício do que um esgar de dentes para esconder a tristeza?

Engraçado é ouvir desde o camping até hoje que, por agir assim, me exponho demais. Recentemente fui crucificado por não fingir estar bem em uma situação em que era óbvio que eu jamais poderia estar bem. Qual o sentido disso? Ao menos sei que todas as vezes em que sorri, cantei e senti foram autênticas; e que, por isso, quando os sorrisos renderam para bem além, vivi momentos que foram muito mais significativos para mim até mesmo do que para quem estava comigo.

Hoje, Bob Sinclair, Jack Johnson e outros cantores de um eterno verão ensolarado também provocam em mim os mesmos sintomas. É um incômodo com o qual tive que aprender a viver, como John Nash aprendeu a viver seguido por seus amigos imaginários. Felizmente sei que, como saldo de tudo isso, acabo por me cercar do tipo de pessoas considero valer a pena: muito mais reais do que a grande maioria.

•••

4 comentários:

Graziele disse...

Colocam-nos a obrigação de estarmos felizes todas as horas do dia, todos os dias: devemos ser sorridentes, simpáticos, receptivos, além de magros, bronzeados, dançarinos, populares etc.
Busco a cada dia estar mais próxima de mim: o meu tornar-se pessoa, com autenticidade sempre.
Poderia desejar que você não se incomodasse com toda essa pressão, mas, dessa forma, não teríamos textos tão bons...
Beijos e tenha uma ótima semana!

Raquel disse...

Li o seu texto rindo....
É engraçado como tenho pensado nisso ultimamente e em como essa " ditadura do sorriso" me incomodou a vida inteira, já que não fui uma criança das mais extrovertidas . mas tb lembrei que qd era criança eu não estava nem aí. Até que chega a idade em que vc quer provar como vc é legal, bonita inteligente etc e toda a sua espontaniedade vai por água abaixo.
Hj já não me incomodo mais, devolvo com ironia as críticas e acabo achando graça disso tudo! Aprendi a não me levar a sério demais..talvez esse seja um grande remédio!
Maravilhoso o seu texto!!!
Beijos

LoL disse...

Cara, você já pensou que seu problema possa ser falta de bebida?
Se nos referidos momentos alhures, você estivesse em estado ébrio, com certeza suas lembranças seriam diferentes =D

Você tem que trocar seus amigos melancólicos pelo festivo Johnnie... Johnnie Walker...

Abraços

Dafne disse...

Bem...hummm...esse texto aqui...o que dizer...
Posso dizer que vc escreveu sobre muitos momentos meus tb!!
Mas nada como ser uma administradora e ter trabalhado em multinacionais por uns anos....para se sentir mais "in"...
E com isso me sinto hoje muito "out" da minha parte que eu bem gostava...
Mas estou tentando me curar de novo....