26 de abr de 2006

:: Alho ::

Tinha gente na vizinhança que jurava: na chácara tinha lobisomem. Mas a verdade é que o cachorro, meio Pastor Alemão, meio Doberman, que ficava preso o dia inteiro e lá pelas dez da noite era solto pra vigiar as redondezas, na felicidade da liberdade, uivava para a lua e para o que mais estivesse à vista. Só que às vezes fazia uma coisa que era só dele: ficava em pé nas patas de trás e, do alto delas, soltava os tais uivos para quem os quisesse.

Para os vizinhos, menos que isso já bastava pra terem certeza de que ali tinha lobisomem sim senhor.

O pessoal da chácara, claro, nunca desmentiu a história: melhor um lobisomem de guarda do que um cachorro que não é nem de uma raça e nem de outra.

Lá pelas tantas, nada mais natural que o resto da cidade assumir que a família inteira era de lobisomem. “Pobres-diabos”, dizia a senhora, que já guardava um luto de 30 anos pelo marido, enquanto fazia o sinal da cruz em frente ao portão dos amaldiçoados – “uma Avemaria não há de fazer mal”.

Em sua venda bem em frente à casa, seu Altamir comemora e aumenta o causo, porque ele, por sua vez, aumentou a venda de alho como nunca se vira. “Alho é pra vampiro”, disse uma vez o garoto da cidade, quando veio comprar meia-dúzia de ovos a pedido da tia solteirona e sentiu o povo recendendo ao tal do alho quando ainda chegava na rodoviária. Falou alto, meio indignado até, deixando seu Altamir com o cenho franzido e o freguês com ar de nem-te-ligo: “mal não há de fazer”, disse, sem saber, em coro com a viúva.

Assalto não acontecia na chácara, mas entrar nela começou a virar prova de coragem pra molecada. Quem era macho tinha que entrar ali e pegar uma fruta qualquer pra trazer de volta, sob os olhares ferozes dos iniciados. Podia ser até jabuticaba – e a chácara era cheia de jabuticabeiras – já que o candidato era examinado de corpo inteiro antes da aventura. Se o tal resolvesse entrar em noite de lua cheia, então, virava celebridade.

O garoto da cidade, o do alho, se achava tão mais esperto que os moleques da roça que falou que entraria na chácara para trazer qualquer coisa que os outros quisessem, na noite que fosse. Na verdade, ele falou isso quando já estava no final das férias e não achou que ia precisar cumprir. Só que sua mãe fez alguma confusão com o calendário e ele ganhou uns diazinhos a mais: pra não ficar mal, teve que ir lá pegar as tais frutas.

O portão da chácara era pequeno – já que ninguém ia se atrever mesmo a entrar em casa com lobisomem – então o garoto passou fácil. Subiu ali uns cinqüenta metros do morro até alcançar a primeira jabuticabeira. A chácara, que não tinha lobisomem mas tinha cachorros, logo mostrou que não estava desprotegida e colocou a matilha inteira atrás do menino. O que ganhou fama de lobisomem vinha na frente, os olhos brilhando com qualquer descuido da lua, e o menino só teve chance mesmo de tentar voltar aos trombolhões de volta para rua. Muito mais lento que a lenda, acabou sendo alcançado quando começava a sair. Só que acabou levando uma dentada bem dada na parte mais macia do corpo: sangrou mais do que doeu. Os outros garotos quase todos já tinham fugido, mas o que ficaram não deixaram de lhe elogiar a valentia. A tia dele, solteirona, por incrível que pareça, nem fez o monte de perguntas que era de se esperar, ficando satisfeita com a versão de que um cachorro de rua tinha ficado louco.

Uns dois dias depois o garoto da cidade voltou pra ela, meio mancando ainda. Os moleques daquela noite foram vê-lo ir embora. Quando o ônibus já ia longe, houve um que lembrou de comentar:
“Pois agora é na cidade que vai ter lobisomem também”.

•••


4 comentários:

Lu disse...

Pelo bem dos cachorros lá não vendia bala de prata.

Conferirei a banda. ;)

Beatriz disse...

O menino morava no Rio?
(só pra saber se corremos algum risco, e se precisarei comprar mais alho...)

:D

Gláucia disse...

Não sei ao certo por que, mas essa história me soa familiar....... (rs)

Raquel disse...

Ihhh.. pelos comentários acima acho que esse menino mora em Niterói hein!!! rsrsrs
Beijinhos!