12 de abr de 2006

:: Aula ::

Cruzaram olhares pela primeira vez no corredor que leva até o salão: ele vinha distraído, enquanto ela ia apressada para o bebedouro que, com toda má-vontade, soltava água morna a goles pequenos. Com medo de tropeçar por sobre as próprias sandálias, ela andava raspando a mão pela parede de chapisco pintado enquanto olhava desafiadora para o chão, como quem vence um inimigo sorrateiro, deixando para qualquer um a impressão de uma timidez que, na verdade, nem era tanta assim. Ele seguia pesado, ainda mastigando um aborrecimento recente, conseguido num bate-boca inútil com um fiscal, como, via de regra, são inúteis todos os bate-bocas, principalmente com fiscais.

E foi o olhar que deveria apenas impedir que batessem de frente que fez justamente se perderem um no outro, embolados, indistinguíveis. Talvez tenha se passado um minuto, talvez toda a vida, mas o que houve naquele momento não encontra palavras para que se descreva. Ficaram, ambos, emudecidos e bobos, denunciados pelos sorrisos e cochichos de quem andava mais rápido.

Ela corou. Mas só um pouco.
Ele tentou balbuciar alguma coisa, mas não reconheceu a própria voz quando a ouviu.

Ela acabou, enfim, tropeçando por sobre as próprias sandálias. Um tropeço leve, que só roubou-lhe o equilíbrio para que pudesse ser amparada pelas mãos dele.

“Obrigada” e, com um sorriso, continuou seu caminho sem lembrar mais do que pretendia fazer. Ele retribuiu com o seu, mostrando os dentes e as intenções. Acompanhou-a com os olhos, já que com o braço ainda não podia, até que, ao virar, dividiu entre sua calça e a camisa metade de um refrigerante diet que outro rapaz vinha bebendo em sentido contrário.

Essa, como já disse, foi a primeira vez em que cruzaram olhares. O bastante para que a partir dali não houvesse outra coisa a ocupar-lhes os pensamentos ou outra vontade que não a de ouvir o tapa na porta, quando alguém anuncia apressado: "intervalo!"
•••

2 comentários:

Graziele disse...

É tão bonito como a paixão acontece inexplicavelmente... e você descreveu essa mágica muito bem!
Lembrei-me de uma poesia do Bandeira que adoro, "Teresa" (vou até postá-la no meu blog, porque ela é muito lindinha!).
Beijos e um ótimo feriado pra vc!

Lu disse...

.nostalgia.