7 de abr de 2006

:: Celofane ::

Quando a vi de novo, vi outra pessoa. Nem sombra daquela que um dia conheci, por quem um dia me apaixonei, e que um dia vim a descobrir.

Passou por mim como quem passa por um estranho, desviando com naturalidade calculada do rapaz entrevado que, sobre o skate, com mãos e olhos pidões, suplicava aos quatro ventos pelo troco das barcas. Lançou-lhe um olhar rápido o suficiente para não ter que cruzar com o meu, e eficiente o bastante para parecer que apenas queria evitar os hippies e seus bongs artesanais a vinte reais cada.


Meus olhos, não baixei. Foram dois anos. Não é necessário dizer-me suas verdades para que eu possa ouvi-las. Você é muito mais transparente para mim do que ambos gostaríamos.

A eletricidade no ar foi como a que antecede as tormentas: mas, como às vezes acontece com elas, não houve trovões, relâmpagos ou mesmo água. Quantos não foram os prenúncios que terminaram em si mesmos?

O sinal, à essa altura, avisava que restavam apenas 13 segundos para atravessar a rua. Nos quatro que levamos, houve o tal silêncio que parece tragar o mundo. É indiferença demais para que fiquemos indiferentes.

Na calçada seguinte, vejo-a seguir adiante, apressada, por entre os óculos, cds, pedintes e pensamentos mal-vindos que sei estar tendo.

Sigo meu caminho. Aliviado, lembro que nossos destinos agora são outros.
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