2 de abr de 2006

:: Chocolates ::

Muito tempo depois ela ainda falaria comigo, na escada que sobe ao lado da doceria, sobre o rapaz que nela, um dia, ofereceu a si mesmo entre os bombons que lhe entregava.

“Vou te contar um segredo” - é como começa a história, emprestando o peso que joga em meu braço à narrativa que já decorei – “O rapaz que trabalha aí é apaixonado por mim”. Vejo, como sempre, o sorriso de menina que aparece sem jeito e os olhos que se perdem entre as rachaduras da calçada, já tão castigada pelo peso de carroças sem fim.

Reajo com o espanto de quem ouve pela primeira vez. Como quem é parte da história que ouve, por saber que a história de quem conta tem capítulos de menos e páginas de mais: sentenças de raiva não ditas, parágrafos de decisões adiadas e notas de rodapé em excesso.

Vejo a fuga que busca nas palavras, contando de si como quem conta de um sonho, de uma possibilidade, de um eterno “poderia ter sido”, um eterno “e se”. Agora, já perto da ladeira, o suspiro dá força para a subida e traz o tempo de volta ao seu lugar. Suspiro com ela, compreensivo e melancólico.

E está outra vez na janela, mais idosa que seus anos, vendo um sol que nasce para se pôr: desconhecida pela lua dos amantes. Uma vida que viveu de um romance que não houve, que tem em suas noites a mera divisão entre os dias. Apenas acordar, descer as ruelas para o leite e pão, e voltar com as moedas para o ex-professor que, sentado no meio-fio, todos os dias lhe pede um trocado pelo amor de nossenhora.

Quando estou lá e me vê, vem contar-me outra vez o segredo. E, apoiando-a com o braço, subimos outra vez as escadas.

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3 comentários:

Rosália disse...

Bacana este texto!!!!
Parabés!!!!!!

Renata Corrêa disse...

Vou declarar na rede o que eu já disse ao vivo: belo texto, Renato Alt!

Leticia Lassance disse...

a-d-o-r-e-i !! bem legal mesmo!