26 de mai de 2006

:: Sal ::

Dia desses olhava o mar.

Em Itacoatiara, há aqueles em que parece uma piscina; em outros, mal se pode chegar perto.

De qualquer forma, nesse dia, eu apenas olhava. Era um dia de piscina. Ou quase.

Havia outros ao redor, conversando. Às vezes alguém levantava, dava um mergulho, voltava. Outros sacudiam o cabelo para molhar quem se entregava ao sol. Mais ninguém parecia, como eu, simplesmente olhar para o mar.

Vi primeiro a luz refletida na superfície, em brilhos irregulares. Levantei um pouco o olhar e enxerguei ilhas ao longe. Percebi nas ondas quebrando o fim de alguma coisa que começou muito além do que eu poderia ver.

A água alcançava meus pés. Cinco centímetros dela, no máximo, com força para mexer pouco mais que a areia solta ali. Na altura das ilhas, pensei, já há muito nela escondido.

Deixei-me ir até o oceano. Lembrei ter ouvido que as maiores montanhas da Terra estão, na verdade, submersas. Lembrei das fendas abissais, abrigando criaturas que nem mesmo conhecemos. Há tanto a descobrir, a saber.

E havia todas aquelas pessoas, ainda, à minha volta. Pessoas que vivem da mesma forma como se mostram ao mar.

Algumas contentam-se em olhar de longe. Outras se mantém ali, no raso, não arriscando molhar mais do que as canelas. É confortável estar na superfície: não há risco. É simples refrescar-se e sair, esperando apenas o calor para voltar a fazê-lo. Não vêem motivos para mergulhar, molhar os cabelos e inundar os póros; para prender a respiração, para abrir os olhos ainda que, vermelhos e ardidos, embacem em lágrimas.

Temo o mar. Mas suspirei, levantei e mergulhei. Como jurei nunca mais fazer, e como faço sempre.
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Um comentário:

Graziele disse...

Adorei seu texto!
E eu sempre mergulho... parece um vício!
Beijos.