28 de ago de 2006

:: Polaroid ::

E com isto que sinto, faço o quê?
Se não posso lhe dizer ao ouvido, que me ouça o mundo. Direi aos quatro ventos. Que atentem todos, se para você meu grito não mais se faz ouvir.

O que vê em mim, que não deixa que me enxergue? Tenho tantos lamentos que já não há palavras que cheguem para expressá-los.

Eu a vejo todo dia. Imagino se sente minha mão quando toco seu rosto, na foto que por descuido me deu.

Há de ser mais. Ainda que só aqui. Em mim. Só.


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21 de ago de 2006

:: Pseudologia Fantástica ::

Uma das coisas que mais gosto é de receber feedback pelo que escrevo aqui. Mas, volta e meia, recebo mail de pessoas preocupadas comigo de uma forma que, no mínimo, intimida a continuar escrevendo. Chafurdam nas entrelinhas do que escrevo e chegam a cada tipo de conclusão a meu respeito que, às vezes, me parece que assumiram a resolução dos meus problemas como uma cruzada pessoal que só vai se concluir no dia em que eu postar meu último texto.

Já ouvi que preciso de tratamento psiquiátrico, que estou espiritualmente entrevado, que não tenho foco definido na vida, que preciso amadurecer, que preciso deixar de ser assim para ser assado ou que preciso enxergar além das quatro linhas. Imagino que essas pessoas estejam absolutamente isentas de qualquer tipo de conflito pessoal ou de dúvidas na vida, coisa que eu nem mesmo acho invejável.

Engraçado esse tipo de manifestação quando o que mais faço aqui é ser absolutamente claro a respeito do que penso e sinto. Ou seja, as pessoas só admitem uma verdade como absoluta: a sua. Se digo que levei um fora de uma garota, na verdade estou dizendo que sou inseguro e que não tenho auto-estima, porque se eu fosse mais assim, ela teria ficado comigo; que se às margens dos 30 anos ainda penso em diversas alternativas para conduzir minha vida ao invés de me conformar com o conformismo é porque não tenho objetivo. Como se toda garota tivesse que ficar comigo simplesmente porque eu quero ou como se uma vida inteira working fot the man fosse garantia de realização pessoal. Como se, também, deixar um legado se traduzisse apenas naquilo que se pode tocar. Além do mais, duvido muito que Frank Sinatra tenha aproveitado seu Jack Daniel’s ou um de seus Camel, com os quais foi sepultado, num happy-hour celestial.

Ele também foi enterrado com algumas moedas caso precisasse telefonar. Se as usou, prefiro não saber.)

Conselhos são bem-vindos. Atestados auto-concedidos de lucidez, nem tanto. Afinal, todos são lúcidos aos próprios olhos e loucos aos de outros. Escrevo porque gosto, porque quero, porque é assim que vejo as coisas. Vou continuar a fazê-lo e a expor tudo aquilo que me vier à cabeça e que achar por bem. Saiba que isso não significa, necessariamente, alguma coisa além do que aquilo que estou dizendo. Até porque costumo ser bem direto ao dar alguma indireta.

Agora, vejamos para onde esse "necessariamente" pode nos lançar.

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10 de ago de 2006

:: Sísifo ::

Chega. Decidi que não vou mais me apaixonar. Não vou mais pensar na aproximação, nas possibilidades, em roubar um sorriso perdido ou uma palavra dirigida.

Decidi que não vou mais voltar pra casa à noite esperando o dia seguinte, na expectativa de que algo novo aconteça quando tudo o que muda é o número no calendário: é o Feitiço do Tempo, comédia no cinema, drama na vida.

Decidi jogar fora meus cds da Sade, do Morrissey, do Tunde, do Teddy Geiger e todos os que começam a tocar sozinhos quando a noite cai. Decidi fugir de qualquer filme com Ralph Fiennes, Meg Ryan ou Jennifer Aniston. Ver mais Romero Brito e menos Mark Ryden. Decidi não ir a qualquer restaurante onde cada mesa tem sua própria luz, ou onde o cardápio de bebidas é separado do de refeições. Decidi ir à praia somente com o sol a pino, mas fugir da areia quando é a vez da lua iluminar o mar. Decidi beber apenas vinho suave e dispensar o tinto seco. Recusar convites para fondue e para finais de semana na serra, e esquecer as cores que tem o sol quando nasce e quando se põe.

Decidi guardar o edredon no armário e cobrir-me só com cobertores. Retirar o dimmer do quarto e instalar uma lâmpada branca, intensa. Comprar mais pilhas para as lanternas e jogar fora todas as velas. Dormir com um travesseiro só e não usar mais toalhas azuis, que me dizem que ao seu lado deveria estar uma rosa.

E em rosas, aliás, também decidi não pensar mais. E decidi comer qualquer chocolate, mas bombons, jamais. Usar qualquer perfume, mas nenhum dos que ainda tenho. Trocar o carro pela moto, e as três da manhã pelas dez da noite.

Decidi não chorar mais. Nem sentir mais. Nem querer mais.

Mas ali está ela.

Bom, ok. Talvez só mais uma vez.

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