30 de set de 2006

:: Inbox ::

De dentro do seu BMW, ele olhava o garoto dormindo debaixo da marquise. Pensava que alguém tinha que fazer alguma coisa a respeito. Naquela mesma noite, naquele mesmo restaurante novo nos Jardins, fez um discurso inflamado (já um pouco alterado por seu Cháteau Lafite), vociferando contra as injustiças sociais e o absurdo que é a falta de sensibilidade das pessoas. Locutor eloquente, mereceu o brinde que lhe fizeram com taças em riste. Foram muitos os tapinhas nas costas daqueles que iam embora, aos poucos, enquanto ele esperava para assinar o recibo do seu American Express Platinum. Houve quem lhe dissesse, enquanto saía, que deveria tornar-se político, porque nosso país precisa é de gente assim.

No dia seguinte lá estava ele, e lá estava o garoto, longe da marquise e debaixo do sinal vermelho. Jogava limões para o alto e deixava cair alguns quando, nervoso, dava uma espiada para ver se a luz mudara para verde. Com o dedo acionando o botão para subir o vidro, o homem pensava a respeito do quanto é cruel esse mundo em que vivemos, onde crianças gastam sua infância no asfalto. Sua secretária, que havia chegado bem antes ao escritório no décimo-oitavo andar, percebeu o quanto o chefe estava perturbado e levou-lhe um café. Ouviu-o. Em seguida, respondeu o quanto o achava um homem bom. Ele sorriu, suspirou, e clicou em "get mail" para começar o dia.

Hora do almoço. Restaurante em frente. Sim, o garoto estava no mesmo lugar, como não? Havia mesas na calçada, e o menino de vez em quando chegava perto de alguém para falar qualquer coisa. O homem escolheu uma mesa lá dentro, de costas para a porta, porque não aguentava ver tanta crueldade. Pediu risoto: o dali é ótimo.

Final do dia, eis o garoto sob a marquise. O homem chega em casa, conversa com a namorada em frente à lareira enquanto pega seus hashis. Ela fica emocionada por namorar um rapaz tão sensível, e fazem amor sobre o tapete felpudo.

Na manhã seguinte, de chuva, confusão na rua. Muita gente aglomerada. Pára o carro perto de um policial, e pergunta o que há.

Durante a noite, mataram o garoto.

Arrasado, o homem sobe ao décimo-oitavo andar. Pega seu café das mãos da secretária, respira fundo e comenta com ela que, se ninguém fizer nada, barbaridades como essa nunca vão parar de acontecer. Antes de sair da sala, ela faz que sim com a cabeça e pousa a mão sobre o ombro do chefe, que retribui com um sorriso triste.

O homem toma um gole do café olhando para o teto. Suspira.
"Get mail."

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23 de set de 2006

:: Métrica ::

O tempo todo passa quando quero
E a reviravolta vem de outro mundo
Pois tudo o que eu faço enquanto posso
Não muda mais por mais de um segundo

O vento frio seca-me a garganta
Enquanto todo o resto cai por terra
Me dá a forma de mais um imundo
Que vem de longe, de uma nova era

Escrevo uma trova em meu joelho
E agora ouço a voz que vem de dentro
O peito fecha pra mais uma idéia
E cai quebrado feito outro segundo

E foi você, sim, que me fez assim
E agora é tudo o que eu quero pra mim

A peça foi montada em um instante
Mas nada sobra pra dizer de novo
A luz que vem debaixo de uma porta
Não muda quando bate no seu rosto

E sem falar da mente avoada
Eu passo reto sem voltar pra dentro
Mas mais que tudo, eu quero um novo nada
E desfazer de quem fui feito outro

Por perto não há nada que eu não tenha
Se não tivesse, não queria outro
A paz que eu entrego em teus dedos
É pouca pra que eu nasça de novo

E foi você, sim, que me fez assim
E é hoje tudo o que eu quero pra mim

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16 de set de 2006

:: Mirante ::

Sabe o que é pensar que houve um momento, ainda que um dia ou uma hora ou um pensamento, em que foi considerado? Talvez um talvez, ou mais ainda, um pode ser. Ah, e sei como são os devaneios: nos levam em um segundo pelo curso de toda a vida. Sonhara com um “quem sabe”, mas me faria contente com um “e porque não?”

Mas iludido, ainda, ouvi nem haver cogitação. Sei que a culpa do sentir é a mesma da indiferença: é o que temos, quando temos, sentenciados que somos por essa inocência. Que se rasurem estas linhas, se a página se recusa a ser virada.

Curioso o dia em que descobrimos serem as lembranças, enfim, pessoas: a primeira paixão, em frente à mais recente. Desconhecidas entre si, mas que tanto têm em comum, quando sorriem do jeito que um dia vi. Ironias orquestradas por alguém, não sei quem, que ri.

Sigo o passo no compasso do suspiro, do queixo apoiado na mão e dos olhos no horizonte, à espera do dia em que algo enfim desponte nele.
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7 de set de 2006

:: Stop ::

Era café preto, quente, amargo. E era um hambúrguer duro, gorduroso. E era água, morna, grossa. E eram três da manhã, e frio, e longe, e chovia, e sozinho, e uma lanchonete saída de um road-movie barato. E era um som ambiente, além do som do ambiente, com a versão de Timmy Thomas para “why can´t we be together”. E era fumaça, muita fumaça, e muito cigarro, e muito charuto, e muito conhaque, e muitos cheiros. E era o balcão, molhado, e cerveja, e amendoins, e saquinhos de sal, e palitos, e guardanapos, e catchup, e mostarda, e pano de prato, e a garçonete gorda, e o cara de boné e a camiseta curta demais para sua barriga. E era o bêbado, sonhando na mesa, e o néon anunciando bebida com duas letras apagadas, e a tevê com seu filme em preto-e-branco (e era faroeste), e uma daquelas luzes azuis que atraem as moscas para a morte. E era mato, cigarra, grilo. E eram caminhões que passavam gritando, e luzes piscando, e alguém entrando, e tosse, e pigarro, e bocejo, e sorriso alcoólico, e aspirinas, e palitos, e azeitonas, e guardanapos, e copo vazio, e o cozinheiro, e torta de limão, e picles, e exaustor, e azulejos, e a porta vaivém do banheiro, e toalha de papel, e sabonete líquido, e moedinhas para a caixinha, e papel-higiênico rosa, e eucalipto, e torneira fria para a água no rosto. E era a conta, e a gorjeta, e o sorriso, e o “obrigado”, e a chave, e o carro, e o motor, e o suspiro, e o pensamento, e os olhos, e a estrada, e as placas, e o rádio, e Timmy Thomas.


E era um dia, talvez terça, e uma esperança, talvez outra, e uma certeza, talvez a mesma.

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1 de set de 2006

:: Mr. Hide ::

Eu tinha o quê? Talvez quinze ou dezesseis anos. O nome dela era Ana. Não, não era, mas agora é. Isso porque não importa o nome dela, mas o que fez. E o dele era Zé. Também não era, agora é, porque também não importa seu nome, mas o que fez. Meu nome, só ele, é e sempre será o mesmo, porque pouco me importa se o que falo agora expõe mais de mim.

Pois então havia a Ana, que eu amava, e o Zé, amigo velho, companheiro de longas partidas de basquete e caminhadas de volta pra casa. Amigo de suco de laranja com acerola no Ponto Jovem, de calçadão da praia, de papos sem nexo ou de tópico único.

Éramos, eu e a Ana, ótimos e perfeitos, até que descobri que nada é tão ótimo ou perfeito que não possa ser terrível e desfeito. Então foi ela quem se tornou o tal tópico único quando todos os outros, que não tinham nexo algum, sumiram. Ainda que eu, em meus monólogos de Fidel Castro, fugisse à consciência de quando em vez.

Pois Zé ouviu, paciente como um monge, e aconselhou como aconselha um periquito de realejo, o que me ajudava pela intenção muito mais que pelo conteúdo. E afinal, eu queria falar: tentar achar em Ana algo que me mostrasse que, no final das contas, era ela quem saía perdendo ao me mandar de volta pra casa sem o beijo de despedida na portaria.

- Fica tranqüilo, meu velho – dizia o Zé, e eu ficava, acredite quem quiser.

Então foi chegando o dia do embarque, aquele que me levaria para visitar o Tio Sam por uma quinzena ou duas. Eu fui, Ana foi comigo sem saber, e passeou ao meu lado por todos os lugares. Tentei deixa-la no hotel ou no carro sempre que saía, mas ela me perseguia e mostrava o seu rosto em cada um dos de mulher que eu via enquanto me desviava das palavras em inglês.

Passou o mês. Oito horas de atraso depois, vim encontrar-me outra vez com Tom Jobim aqui no Rio. E no dia seguinte com o Zé, anormalmente ansioso por falar comigo. Era dia de basquete.

Voltamos como voltávamos sempre, falando de cestas de dois e de três, até que o Zé terminou uma frase pela metade para falar o que tanto queria.

- Pois diga, disse eu.

Um pigarro. E veio.

- Estou namorando a Ana.

Olhei. Olhei. Olhei.

- Você não fica chateado comigo não, né, cara? – Perguntou.

Franzi a testa por horas de segundos. Dei dois tapinhas em seu ombro.

- Rapaz, faça aquilo que você acha certo. – E segui, sozinho, até minha casa.

Ana e Zé ficaram juntos por algum tempo. Bem pouco, é verdade. Terminaram sem saudades um do outro, e foi ele encontrar com o mesmo Tio Sam, atrás do seu sonho americano. Ela, não sei bem ao certo, parece que se casou, tem filhos, um labrador e uma casinha com cerca branca.

Fiquei sim com saudades por um bom tempo, mesmo sem saber muito bem se era saudade, raiva, decepção, ou um caldo de todos. Hoje não dói, mas é um nódulo residente que incomoda, que atrapalha quando preciso enxergar um amor e uma amizade ao mesmo tempo, em pessoas diferentes.

Zé reapareceu, depois de anos. Ana, jamais. Mas agora já não me importam ambos, ainda que o que fizeram importe mais do que eu gostaria, e nuble dias que nasceram com céu de brigadeiro. Ao menos sei que, ainda que caia a chuva, o rosto molhado é o meu.

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