1 de set de 2006

:: Mr. Hide ::

Eu tinha o quê? Talvez quinze ou dezesseis anos. O nome dela era Ana. Não, não era, mas agora é. Isso porque não importa o nome dela, mas o que fez. E o dele era Zé. Também não era, agora é, porque também não importa seu nome, mas o que fez. Meu nome, só ele, é e sempre será o mesmo, porque pouco me importa se o que falo agora expõe mais de mim.

Pois então havia a Ana, que eu amava, e o Zé, amigo velho, companheiro de longas partidas de basquete e caminhadas de volta pra casa. Amigo de suco de laranja com acerola no Ponto Jovem, de calçadão da praia, de papos sem nexo ou de tópico único.

Éramos, eu e a Ana, ótimos e perfeitos, até que descobri que nada é tão ótimo ou perfeito que não possa ser terrível e desfeito. Então foi ela quem se tornou o tal tópico único quando todos os outros, que não tinham nexo algum, sumiram. Ainda que eu, em meus monólogos de Fidel Castro, fugisse à consciência de quando em vez.

Pois Zé ouviu, paciente como um monge, e aconselhou como aconselha um periquito de realejo, o que me ajudava pela intenção muito mais que pelo conteúdo. E afinal, eu queria falar: tentar achar em Ana algo que me mostrasse que, no final das contas, era ela quem saía perdendo ao me mandar de volta pra casa sem o beijo de despedida na portaria.

- Fica tranqüilo, meu velho – dizia o Zé, e eu ficava, acredite quem quiser.

Então foi chegando o dia do embarque, aquele que me levaria para visitar o Tio Sam por uma quinzena ou duas. Eu fui, Ana foi comigo sem saber, e passeou ao meu lado por todos os lugares. Tentei deixa-la no hotel ou no carro sempre que saía, mas ela me perseguia e mostrava o seu rosto em cada um dos de mulher que eu via enquanto me desviava das palavras em inglês.

Passou o mês. Oito horas de atraso depois, vim encontrar-me outra vez com Tom Jobim aqui no Rio. E no dia seguinte com o Zé, anormalmente ansioso por falar comigo. Era dia de basquete.

Voltamos como voltávamos sempre, falando de cestas de dois e de três, até que o Zé terminou uma frase pela metade para falar o que tanto queria.

- Pois diga, disse eu.

Um pigarro. E veio.

- Estou namorando a Ana.

Olhei. Olhei. Olhei.

- Você não fica chateado comigo não, né, cara? – Perguntou.

Franzi a testa por horas de segundos. Dei dois tapinhas em seu ombro.

- Rapaz, faça aquilo que você acha certo. – E segui, sozinho, até minha casa.

Ana e Zé ficaram juntos por algum tempo. Bem pouco, é verdade. Terminaram sem saudades um do outro, e foi ele encontrar com o mesmo Tio Sam, atrás do seu sonho americano. Ela, não sei bem ao certo, parece que se casou, tem filhos, um labrador e uma casinha com cerca branca.

Fiquei sim com saudades por um bom tempo, mesmo sem saber muito bem se era saudade, raiva, decepção, ou um caldo de todos. Hoje não dói, mas é um nódulo residente que incomoda, que atrapalha quando preciso enxergar um amor e uma amizade ao mesmo tempo, em pessoas diferentes.

Zé reapareceu, depois de anos. Ana, jamais. Mas agora já não me importam ambos, ainda que o que fizeram importe mais do que eu gostaria, e nuble dias que nasceram com céu de brigadeiro. Ao menos sei que, ainda que caia a chuva, o rosto molhado é o meu.

•••

5 comentários:

tati disse...

sempre te acompanho por aqui,
também é um jeito de matar saudade...parece que estou te ouvindo ,é mto vc!! adoro!!!
bjos.

Graziele disse...

Adorei sua narrativa; tem umas imagens maravilhosas!
Ótimo trato com as palavras...
Beijos.

Cris Cidade disse...

Tão bem escrita. Tão triste. Ainda mais quando se tem 16 anos. Se bem que isso não diz muita coisa; me parece que, 10 ou 20 anos depois, os 16 voltam cada vez mais intensos.
Bom, passei pra dizer oi (eu sempre leio e não comento, shame on me) e também uma outra coisa que desisti de escrever porque, de outro modo, acabo me comprometendo.
Beijo e saudade. :)

ĿiŁi disse...

Isso me doeu...!!!
Muito forte porém bonito... ;*

Renata disse...

que bonito. mas acontece com todo mundo.