28 de out de 2006

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Sim, é como escrevo, e como continuarei a escrever.

Escrevo às custas de amigos que tenho, que achava ter e de lugares onde não descobri nenhum. Escrevo às custas da minha casa, do meu dia, das minhas horas e segundos eternos. Escrevo às custas dos sorrisos que dou, daqueles que me negam e do choro que nem sempre vem. Escrevo às custas da falsidade, às custas da amizade, às custas de um dia que começou tarde e de uma noite que acabou cedo. Escrevo às custas do trabalho, às custas de pessoas que não são, às custas de um saldo que me nega o pão, às custas de um final de semana perdido numa folha qualquer, onde eu nem mesmo desenho um sol amarelo. Escrevo às custas da prosa, escrevo às custas da bossa nova e do rock´n roll. Escrevo às custas do que esperava, e às custas do que me deram.

Escrevo às custas de você que não quer que eu escreva, escrevo às custas de quem espera o que tenho a dizer. Escrevo às custas de uma idiotice que sou obrigado a ouvir e de um aceno de cabeça que não esperava ver. Escrevo às custas do sorriso que é um escarro, do afago que é um escárnio, do almoço que é um veneno.

Escrevo às custas das palavras que vêm por conta própria, às custas das que não querem que eu as escreva. Escrevo às custas de pensamentos que não querem calar, de idéias que querem morrer e de vultos que querem passar. Escrevo às custas de quem olha, e que enfim se faz ver.

Eu escrevo porque é o que faço. É o que sou. Queira você ou não, queira eu ou não. Eu escrevo às suas custas e às minhas.

Sim, é como escrevo, e como continuarei a escrever.
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21 de out de 2006

:: Praça ::

Depois da terceira doença que ele passou para ela, a família obrigou-a a se separar. O homem era um à toa, que passava os dias dedilhando um violão velho e as madrugadas sendo expulso de todos os bares que encontrava. Expulso do último, era recebido em sua cama pela mulher que o amava do jeito inexplicável que só o amor explica, mesmo que não tivesse sido a única cama na qual se deitara naquela noite.

Tempos antigos, a família determinou, a moça cumpriu. Não se soube mais do homem, nem se procurou saber, até que a notícia de sua morte chegou aos ouvidos de todos por vontade própria. Cirrose ou tiro, isso nunca se decidiu: a parte da família que o achava um vagabundo escolheu cirrose; a que o via como mau caráter, preferiu tiro. Satisfeitas ambas as vontades, a moça, que já não era mais tão moça, levou como tiro a notícia e a carregou como doença anos afora. Havia se exilado por vontade própria imposta pelo irmão que morava longe. Mas salva do perigo graças à morte, voltou para onde sua história começou.

Ninguém entendia (nem procurava) como ela amou e ainda amava aquele tal. Mas quando a queriam encontrar, bastava dar alguns passos até a praça e lá estava: sentada no banco, olhos perdidos, lembrando de quando ali ficava com o boêmio incorrigível.

No almoço de domingo, quando ela deixava a mesa após nada falar, os comentários continuavam os mesmos: todos tentando convencer a si mesmos que fizeram o que fizeram porque, afinal, era o melhor para ela.

Seja como for, ela viveu a vida que decidiram. Morreu a morte que decidiram. Por ironia, foi enterrada perto de quem nunca mais deixaram se aproximar.

Os membros da família, já de lágrimas secas, passavam os braços um em volta do outro dizendo que tanto se esforçaram para que ela fosse feliz.

Diziam isso e olhavam para o lado, jurando que alguém sussurrava “menos deixá-la ser.”

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14 de out de 2006

:: MSN ::

E agora o relógio acusava 3 horas, em uma madrugada perdida entre um sábado e um domingo.

***@njinh@13*** diz:
Olá!

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Olá.

***@njinh@13*** diz:
Tudo bem?

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Sim, tudo bem. Desculpe, mas quem é? Não reconheço o endereço...

***@njinh@13*** diz:
Rsrsrsrsrs

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
?

***@njinh@13*** diz:
Peguei seu msn com uma amiga. Tomara ke não se importe.

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Sem problemas. Quem?

***@njinh@13*** diz:
Deixa de ser curioso, menino!

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Ok... rs

(8 minutos depois)

***@njinh@13*** diz:
Nossa, parece que vai xover né?

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Você vai para qual andar?

***@njinh@13*** diz:
Hein????

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Nada. Deixa pra lá.

***@njinh@13*** diz:
Ta tudo bem?

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Sim. Felizmente nada aconteceu de errado nos últimos dez minutos.

***@njinh@13*** diz:
Não entendi...

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Deixa pra lá.

***@njinh@13*** diz:
Eu li o seu blog...

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Espero que tenha gostado!

***@njinh@13*** diz:
Gostei sim

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
De algum texto específico?

***@njinh@13*** diz:
De todos!!

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Fico feliz com isso... sabe, quase ninguém comenta os textos. Gosto muito de saber a opinião das pessoas sobre o que escrevo.

***@njinh@13*** diz:
Que texto você escreveu?

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Como assim?

***@njinh@13*** diz:
Você disse que gosta de saber a opnião das pessoas sobre o que eskreve, perguntei kual texto dakeles você eskreveu.

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Acho que não estou entendendo sua pergunta...rs

***@njinh@13*** diz:
Qual texto do site você eskreveu, menino!

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Deixa eu entender: você tá perguntando quais textos do meu site eu escrevi? É isso?

***@njinh@13*** diz:
Duh! Eh!

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Quem te deu meu msn?

***@njinh@13*** diz:
Hein? Ah, naum vo dizer! Ateh pq ela disse que você nunk entra no msn... Eu jah te adicionei tem tres semanas, soh hoje voce entrou! Kkkkkkkkkk

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Eu detesto msn. Nem sei porque entrei agora. Mas, pelo jeito, eu escolho as horas exatas pra entrar.

***@njinh@13*** diz:
Não entendi.

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Deixa pra lá.

***@njinh@13*** diz:
Me diz kuais textos você eskreveu!!.

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Você tá mesmo perguntando isso? Ok. Exceto os que uso na abertura do site, obviamente escrevi todos.

***@njinh@13*** diz:
Mentira

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
?

***@njinh@13*** diz:
Eu sei q eh mentira.

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Pelo jeito estou conversando com um polígrafo... quebrado.

***@njinh@13*** diz:
q?

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Nada. Olha, porque é que você me adiciona no msn se aparece pra dizer que gostou de um site onde nada do que escrevo é meu?

***@njinh@13*** diz:
Ah, mas são textos legais... só que eu não sabia que você era mentiroso!!

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
É sério isso?

***@njinh@13*** diz:
Eu vi ke você copiou um texto do kibelouco!

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Você deve estar falando do texto de ano novo...

***@njinh@13*** diz:
Isso! Ta vendo? Você sabe!

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
O que EU sei é que escrevi aquele texto e enviei para uma lista de amigos, e entre eles está o Tony, dono do kibeloco, que é um dos meus melhores amigos e de quem fui padrinho de casamento. Ele me perguntou se podia publicar o texto no Kibeloco e eu disse que sim. Simples.

***@njinh@13*** diz:
Ta bem.

(5 minutos depois)

***@njinh@13*** diz:
Ei

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
?

***@njinh@13*** diz:
Pensei que você era sincero, mas isso do kibelouco é mentira. Desculpa, mas não posso conversar com kem não eh sincero, com kem nao se mostra. Sinceridade pra mim eh tudo.

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Percebi isso logo de cara, “***@njinh@***”.

***@njinh@13*** diz:
O ke você kis dizer

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Ah, provavelmente alguma coisa não de minha autoria.

***@njinh@13*** diz:
Pelo jeito minha amiga se enganou a respeito de uma pessoa

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
E eu a respeito de duas.

***@njinh@13*** diz:
Han?

• Renato Alt • Compro serotonina • diz:
Nada, deixa pra lá.

***@njinh@13***
pode não responder porque ele ou ela parece estar offline.

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7 de out de 2006

:: Spam ::

Cansei de lutar contra o lixo eletrônico. Resolvi levar a sério todos os e-mails que recebo.

Por isso, a partir de agora, quando forem falar comigo, me chamem de "doutor": comprarei um doutorado via internet pela conceituadíssima universidade de Real Beack. O dinheiro para pagar por ele vai entrar direto na minha conta assim que eu fornecer todos os meus dados bancários (inclusive senha) ao confiável Trust Bank of América - afinal, confiança é o seu primeiro nome. O dinheiro vai servir também para investir em uma das principais montadoras de carro japonesas que está desembarcando agora no Brasil. Ela escolheu a mim - graças ao meu faro para boas oportunidades - como parceiro exclusivo para as terras Tupiniquins.

Vou aproveitar que fui o bilionésimo internauta a acessar o smiley.net e fazer um depósito (para despesas legais) de US$ 50 (fifty american dollars) para garantir meu prêmio exclusivo. Vou fazer a viagem dos meus sonhos por um preço inigualável, munido por pílulas especiais e alongadores anatômicos que vão garantir que um dos membros do meu corpo vá chegar bem antes do resto de mim ao nosso destino... desde que, claro, eu também compre por um preço especial os comprimidos 100% naturais que são alternativa ao Viagra.

Vou ligar para todos os meus amigos, quando em viagem, usando o gerador de créditos online e o celular que a Ericsson vai me dar ao rastrear o e-mail que reenviei para outros vinte amigos. Aproveito para ligar, também, para todas as celebridades que estão com os números anotados naquela lista do empresário famoso, que vazou. Vou mudar a cor do meu Orkut (que agora vai ser pago) com a senha especial, para despistar os agentes americanos que o usam como base de dados. Vou fazer também aquela brincadeira fantástica proposta no Fantástico (não é vírus!). Vou descobrir a senha de qualquer um e espalhar minha mensagem de protesto contra os engarrafadores de gatos e contra os fazendeiros que criam bois mutantes para fabricar hambúrgueres.

Vou aproveitar a vida com mais cuidado, observando as poltronas dos cinemas onde um maluco tem colocado agulhas com sangue contaminado pelo virus da AIDS e olhando para os dois lados enquanto caminho, já que não quero acordar sem os rins em uma banheira cheia de gelo.

Não vou mais comer frutas, verduras e legumes porque foram geneticamente modificados. Também não vou mais comer carne porque estão sendo feitos experimentos científicos nos animais.

Com certeza a vida agora vai ser bem mais fácil de ser vivida. Pena que só vá durar até 2013, quando uma tsunami de 150 metros vai transformar o Brasil em uma nova Atlântida.

Empty trash.

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