21 de out de 2006

:: Praça ::

Depois da terceira doença que ele passou para ela, a família obrigou-a a se separar. O homem era um à toa, que passava os dias dedilhando um violão velho e as madrugadas sendo expulso de todos os bares que encontrava. Expulso do último, era recebido em sua cama pela mulher que o amava do jeito inexplicável que só o amor explica, mesmo que não tivesse sido a única cama na qual se deitara naquela noite.

Tempos antigos, a família determinou, a moça cumpriu. Não se soube mais do homem, nem se procurou saber, até que a notícia de sua morte chegou aos ouvidos de todos por vontade própria. Cirrose ou tiro, isso nunca se decidiu: a parte da família que o achava um vagabundo escolheu cirrose; a que o via como mau caráter, preferiu tiro. Satisfeitas ambas as vontades, a moça, que já não era mais tão moça, levou como tiro a notícia e a carregou como doença anos afora. Havia se exilado por vontade própria imposta pelo irmão que morava longe. Mas salva do perigo graças à morte, voltou para onde sua história começou.

Ninguém entendia (nem procurava) como ela amou e ainda amava aquele tal. Mas quando a queriam encontrar, bastava dar alguns passos até a praça e lá estava: sentada no banco, olhos perdidos, lembrando de quando ali ficava com o boêmio incorrigível.

No almoço de domingo, quando ela deixava a mesa após nada falar, os comentários continuavam os mesmos: todos tentando convencer a si mesmos que fizeram o que fizeram porque, afinal, era o melhor para ela.

Seja como for, ela viveu a vida que decidiram. Morreu a morte que decidiram. Por ironia, foi enterrada perto de quem nunca mais deixaram se aproximar.

Os membros da família, já de lágrimas secas, passavam os braços um em volta do outro dizendo que tanto se esforçaram para que ela fosse feliz.

Diziam isso e olhavam para o lado, jurando que alguém sussurrava “menos deixá-la ser.”

•••

6 comentários:

Rafael Alt disse...

Duas palavras: muito bom!

EBL disse...

Como sempre...ótimo texto.

Lucas disse...

Show rapaz!!!
Acho que sei de onde veio a inspiração! He he he!
Sempre bom ler o que você escreve!!!!
Abração!

Me disse...

É... trágico mas real.Melancólico... mas pra transmitir sentimentos, só mesmo um texto muito bem escrito, aliás, como seeeempre.

Bia Oliveira disse...

"menos deixá-la ser"
adorei =)

Bela disse...

Muito bom!
Tem que mostrar pra Monah!
Bjo.