25 de nov de 2006

:: Fronteira ::

Pára o tempo, quero começar de novo pra mudar quem foi deposto quando veio pra chegar.

Com parcimônia cai o pano, cai a lona, e a história já não muda como trem quando parou.

Na cidade há a porta da garagem, e o entulho dentro dela não me deixa respirar.
Jogar pra fora tudo o que encontrei no sótão escondido na poeira de um passado que esqueci.

E choro a lágrima lembrada de um momento, feito monstro peçonhento que a mim vem assombrar.

Mais uma vez eu corro atrás do meu juízo e não mudo quando digo que o pior já não passou.

É egoismo se você não vem comigo e deixa o mundo só com isso e não deixa a sua dor.

Sua mentira, limpa, pura e cristalina vai com sua anemia retomar de onde parou.
A plataforma sobe só com minha ajuda e contudo não se usa perdoar o que passou.

Sempre, sempre, sai razão e mata a mente, mas fui feito diferente, algo que não sei que sou.

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15 de nov de 2006

:: ( sic ) ::

Não me defina pelo que escrevo. Não me defina pelo que penso. Não me defina pelo que você pensa, ou pelo que pensa do que escrevo. Definir-se é limitar-se, é diminuir a potencialidade que há em ser. Deixe-me ser, seja e veja simplesmente; não entenda, não me entenda, não quero ser entendido. Não quero parecer ter respostas, mas propor perguntas: só a falta de conclusões traz novos pensamentos. Cansei de horizontes contornados, de retas encontrando-se no infinito: quero o infinito infinito, o horizonte sem forma, cor, e inalcançável. Quero todo sentimento novo de novo, toda dor que vier e todo riso: o ar que toca os dentes já não é mais o mesmo. Nenhum dia o é, e a inevitabilidade do nascer do sol é a única rotina sadia. Venham sóis, venham chuvas!

Há os dias em que não quero ser. Nesses dias, não pense em mim, não fale sobre mim, não me obrigue a existir.

Falo daqui, para a quarta parede, e respiro fundo para seguir adiante: caminho aberto. Não baixe as cancelas.


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12 de nov de 2006

:: Quem não te conhece que te compre! ::

Ato II


CENA I

(Gabinete de Fulano. Entra a criada.)


CRIADA – Meu senhor Fulano, eis que encontra-se aqui Cicrano procurando falar consigo. Parece-me bastante perturbado, e arrisco-me a dizer que jamais o vi de tal maneira.

FULANO – Oh, sim, há que se compreender. O rapaz foi dispensado de nossa empreitada através de um mensageiro...

CRIADA – O senhor quer dizer que lhe deu o dia de folga? Sem dúvida que és deveras bom, meu senhor. Tanto que não entendo como o bom Cicrano pode estar tão transtornado.

FULANO (desconcertado) – Bem... sim, é isso mesmo. Na verdade, dei-lhe mais que apenas um dia de folga. Mas sabe como é, querida criada, as pessoas nunca estão satisfeitas com aquilo que lhes é ofertado.

CRIADA – Sim, meu senhor. E é por tal desprendimento que lhe admiro. Ainda hoje, ao ouvir as notícias, soube que ganhaste o direito de representar os Panificadores Reais. Saiba que tal aconteceu em recompensa à tua índole!

FULANO – Estiveste a ouvir notícias durante vosso período de trabalho?

CRIADA – Sim, meu senhor. Creio que é importante que eu mantenha-me informada para lhe servir melhor.

FULANO – Sem dúvida! Agora, por favor, traga-me vinho. Diga Cicrano que não posso atendê-lo, que estou ocupado com qualquer coisa. Ah, e ao sair, peça que João Ninguém venha estar comigo.

CRIADA – Certamente, senhor. Com sua licença.

(alguns minutos passam, e chega João Ninguém)

JOÃO (tem a fala difícil, pronuncia as palavras quase sem abrir a boca) – Mandou chamar-me, Fulano?

FULANO – Sim, João. Peço-lhe que de imediato dispense os serviços da criada que foi chamar-lhe.

JOÃO (supreso) – Mas senhor, que hei de dizer a ela? Por que a dispensas?

FULANO – Não sei, apetece-me dispensá-la. Ainda agora disse-me estar ouvindo as notícias do dia, ao invés de, por exemplo, pesquisar algum novo tipo de vinho que pudesse agradar-me. E tu não deves satisfação alguma, há que usar do poder de teu cargo! Dispensa a mulher, ou disponso eu a ti!

JOÃO – Bem sabeis que não podes fazer isso, logo entendo como brincadeira isso que dizes... Afinal, sou eu quem sei de teus gastos, despesas e daquilo que de fato declaras ao rei...

FULANO (inquieto, nervoso)– Sim, sim, é brincadeira! Bom saber que manténs o espírito jovem, caro João. Pois vá, apressa-te, que até o final deste dia não mais quero ver o rosto daquela criada.

JOÃO – Considera-a já carta fora do baralho!

(João mostra-se apreensivo, subitamente)

FULANO – Que passa João? Acaso não já o dispensei? Que fazes aqui ainda? Se tens algo a falar-me, faça-o prontamente!

JOÃO – Sim, de fato tenho. É que hoje chegou às minhas mãos mais uma intimação. Jon Doe foi até os Legisladores e intimou-nos a pagar o que lhe devemos...

FULANO (rindo) – Ora, João, é apenas mais um dentre tantos! Não entendo por que ficas nervoso! Basta que tratemos como sempre: adiemos, adiemos! Não te perturbes mais, e corre a fazer o que lhe pedi.

JOÃO (aliviado) – Certamente, senhor. Com sua licença.

(saem)

CENA II

(recepção do estabelecimento de Fulano. Cicrano está sentado. Entra a criada)

CRIADA – Senhor, lamento dizer-lhe que Fulano não poderá recebê-lo agora. Entretanto, pediu-me que lhe dissesse que tão logo possa atender-lhe, fará com a máxima alegria.

CICRANO – Pergunte-lhe, por favor, se não pode conceder-me apenas cinco minutos Decerto não demorarei mais que tanto.

CRIADA – Lamento, mas ele deixou bem claro que não poderá recebê-lo e pede que volte outro dia. Disse, também, que sente muito por sua dispensa, e que anseia por conversar consigo para que não haja quaisquer desconfortos entre vocês.

CICRANO – Certamente ele lembra-se que a mim prometera estar sempre com lugar garantido neste empreendimento, não é?
CRIADA – Como poderia eu responder a isso?

CICRANO – Tens razão. Ao menos poderia Zé das Couves me receber?

CRIADA – Verei junto a ele. Mas bem sabeis que não é pessoa confiável...

CICRANO – Tu não és a primeira a falar-me tal cousa. Tens fundamento para afirmar isto ou apenas repete o que ouves como um papagaio mal-educado?

CRIADA – De fato, a mim, nada Zé das Couves fez. Entretanto, de tanto que ouço, eis que encontro-me deveras assustada diante de qualquer assunto a ele concernente.

CICRANO – Pois que com ele entenda-me eu. A ti, basta que lhe comunique minhas intenções, o que agradeço se fizerdes prontamente.

CRIADA – Pois não. Vou agora mesmo até lá.

CENA III

(Gabinete de Zé das Couves. Entra a criada.)

CRIADA – Meu senhor, está aí o jovem Cicrano querendo falar-lhe...

ZÉ DAS COUVES – Pois bem, mande-lhe que entre!

CRIADA – Pois não.

(A criada sai, entra Cicrano)

ZÉ DAS COUVES – Cicrano, meu rapaz, já sei do que lhe aconteceu. Como pode ser isso, visto que és tu um dos que sempre junto a nós guerreou, e merecedor és dos bons tempos que sobre nós ameaçam despontar?

CICRANO – Muito me surpreende vossa reação, e entristece-me que seja esta a primeira oportunidade que temos de falarmo-nos: aquela de minha dispensa. Vim até vossa presença justamente esperançoso de que alguma luz pudesses lançar sobre os acontecimentos que sobre minha vida tomaram parte nos últimos tempos.

ZÉ DAS COUVES – Entendei, caro Cicrano, que por mais que discorde eu da postura assumida por Beltrano, não convinha que contra ele me colocasse, uma vez que não seria corretao destituí-lo do poder que eu mesmo dei. Entretanto, asseguro-lhe que nenhum intento tinha eu de dispensá-lo e nem ao menos tinha isso em vista. Se quiseres, hei de conversar com Beltrano e conseguir que possas reintegrar-se ao trabalho que agora vem tanto!

CICRANO – Agradeço vossa intenção, mas tenho por bem que essa não é a maneira correta de procedermos. Venho, portanto, pedir apenas que da dívida que tens junto a mim possa eu ver o ouro, uma vez que mesmo para manter-me não possuo espécie alguma.

ZÉ DAS COUVES – Pois firmo aqui minha palavra junto a ti que necessidade alguma passarás. Mandarei que entreguem pessoalmente a quantia que lhe devemos e mais ainda: tratar-te-hei como a de um de meus funcionários, mantendo-o nos pagamentos regulares que faço a cada mês!

CICRANO – Mais uma vez lhe agradeço e peço que, em nome de um respeito que sempre tivemos um para com o outro, honre tal compromisso. De fonte alguma posso eu dispor além desta.

ZÉ DAS COUVES – Digo ainda outra coisa: hei de descobrir o motivo que levou à tua dispensa, e tão pronto saiba de qualquer nova, farei com que saibas de imediato.

CICRANO – Tens toda a minha consideração por assim procederes, caro Zé. Não mais intento roubar-lhe o tempo, então me despeço confiante em tua palavra.

ZÉ DAS COUVES – Vá, amigo, e peço que mande que um mensageiro, em teu nome, venha estar comigo já na próxima semana!

(saem)

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4 de nov de 2006

:: Quem não te conhece que te compre! ::

Ato I


(comédia ambientada no século XVII)

Personagens

Fulano: empresário famoso, empreendedor.
Cicrano: rapazote, servo de Fulano.
Beltrano: sócio de Fulano, também empresário.
Taberneiro: dono do estabelecimento, chamado pelo nome de sua função.
João Ninguém: tesoureiro de Fulano e Beltrano.
Zé das Couves: o misterioso sócio do grupo.

Criados, mensageiros etc


...

CENA I

(Uma taberna. Hora do almoço. Entram Fulano e Cicrano. O lugar está bastante movimentado.)



FULANO – Veja, rapaz, nossa mesa de sempre está vaga!


CICRANO – É melhor que façamos com que deixe de estar!
(ambos riem. Nesse momento chega o taberneiro)

TABERNEIRO – O carneiro hoje está ótimo, meus amigos. Sugestão da casa.

FULANO – Você diz isso porque não é um carneiro. Aliás, se fosse um carneiro, nem diria nada!
(Cicrano finge não ouvir. Fulano e o Taberneiro riem)

TABERNEIRO – Você, fulano, sempre tão bem-humorado! Hás de viver eternamente! Coisa que um bom vinho há de garantir, posso assegurar-lhe!

FULANO – Pois traga do teu carneiro. E do teu vinho! Eu e Cicrano hemos que festejar!

TABERNEIRO – Poderia eu, seu criado, perguntar-lhe o motivo de tal festim?

FULANO – Certamente! Eis que nós, Cicrano e eu, passamos agora a responder pela Panificadora Real, falando direto com sua majestade!

TABERNEIRO – Mas meus parabéns! Como deu-se isso?

FULANO – Eis que eu e Cicrano – sim, mérito dele também! – estivemos a conversar com o panificador real e este, interessado em nossa magia da comunicação, interessou-se por demais em nossos atributos propagadores. Pois então contratou-nos, a mim e a Beltrano que bem conheces, para fazer-se saber que é ele quem leva ao forno tão magníficas peças da panificação. É com orgulho que, já neste mês, faremos saber a todo vilarejo a autoria de tão magníficas obras de arte, pois é o que são!

TABERNEIRO – Mas ora! Tal data bem merece celebração que lhe seja justa! A todos aqui presentes, vinho por conta da casa!
(gritos e aplausos)

FULANO – Vês, Cicrano? Eis as alegrias que a comunicação há de lhe dar! Bem sei reconhecer que és participante disto! Tuas idéias e teu empenho trouxeram-nos até aqui. Sabeis que não hei de esquecer vosso esforço e dedicação. Estamos juntos nessa empreitada, e juntos permaneceremos até que os dias nos digam que não!

CICRANO – Faz-me muito feliz, senhor, uma vez que sei do quanto dediquei-me para que melhores dias enfim despontassem em nossa jornada. Ainda que sejas novo em tua empreitada junto a Beltrano, percorri eu longo caminho até aqui. Congratulei-me junto a ele quando soube de tua vinda, e eis que vejo agora que tal escolha foi acertada: regozijemo-nos, pois os tempos agora são nossos!

(o taberneiro chega com três taças de vinho. De pé. os três brindam, gritando em uníssono)

- À nossa!

(saem)


CENA II

(Gabinete de Beltrano. Entra Fulano.)


BELTRANO – Pois não morrerás mais, caro Fulano. Agora mesmo pensava em ti!

FULANO – Sinal de bom agouro, devo crer, tendo em vista as notícias que me chegam!

BELTRANO – Sem dúvida, caro amigo. As novas sobre a Panificadora sem dúvida são as melhores que se pode ter. Não lhe falei do quanto valiam as palavras de nosso bom Cicrano? Eis aí o que nos rendem!

(Fulano, subitamente, assue um ar pesaroso)
FULANO – Pois é fato que tens razão. Todavia, não vejo entre nós lugar para o bom Cicrano.

BELTRANO – Como é isto, visto que desde há muito tempo vem ele semeando junto a nós os frutos que agora colhemos?

FULANO – Isto é bem verdade, eu sei. Entretanto, vejo que o bom Cicrano não mais aspira o mesmo futuro que nós, tendo entregado a si mesmo para artes outras. Vejo que talvez não sintas assim, como sinto eu que próximo a ele labuto dia após dia, mas tenho por bem que talvez seja este o momento de dispensar de junto a nós sua presença.

BELTRANO – É verdade isto que me falas? Não é fato que do que conquistamos tem Cicrano grande participação? Não é com ele que lhe cabe cear sob todo sol, sob toda intempérie, ainda que há pouco tenhas vindo juntar-se a nós?

FULANO – Sim, bem sabeis isto. Entretanto, creio que seu tempo hora se cumpre. Se comigo concordais, peço vossa bênção para que de nosso meio dispensemos tal obreiro. Faço saber, ainda que ele próprio não o saiba, que isto lhe é para o próprio bem.

BELTRANO – Está Cicrano a par de tais novas?

FULANO – Jamais. Devo confessar que, em seu entendimento, está mais próximo a nós do que nunca, sabedor que é dos momentos difíceis que atravessou em vossa companhia e, mais recentemente, em minha também. É sabedor que mesmo que agraciado com tão poucos recursos tinha em vista o momento que agora deslumbramos. Entretanto, ainda assim, vejo com bons olhos que sigamos nosso caminho sem contar com sua permanência.

BELTRANO – Sendo esta vossa decisão, omito-me de pronunciar quaisquer palavras. Surpreende-me que assim seja, sendo o rapaz alguém a quem prometi trazer sempre junto a mim em minhas empreitadas, e mesmo ao assegurar-lhe lugar quando de vossa contratação. Entretanto, não me é confortável opor-me à decisão hora tomada por si. Que faça o que lhe aprouver, que com o rapaz entedo-me eu. Ainda que seja não recebendo-o quando a mim procurar.

FULANO – Agradeço-lhe o voto de confiança, nobre amigo, e eis que logo venho avisar-lhe quando o fato estiver consumado.

BELTRANO – Pois lamento eu que seja assim. De qualquer forma, ao sair, peça que venha a camareira contatar-me. Eis que não agüento mais estes mesmos acepipes!

(saem)



CENA III


(Cicrano sentado à uma mesa, escrevendo. Entra um mensageiro)


MENSAGEIRO – Nobre Cicrano, eis que vos trago notícias de alta ordem!

CICRANO – Pois não tardeis a falar! Cumpre que me diga logo teu intento, já que pronto estou a atender!

MENSAGEIRO – Acalmai-vos, pois as novas que lhe digo dizem o oposto. Eis que são ordens de dispensa, que clamam que vós permaneçais em vossa residência, visto que não encontras mais valia junto aos servidores reais.

CICRANO – Não há outra que não que entendeste mal, nobre mensageiro. Sou eu servidor de longa data, de chuvas e trovões, de vento e de geada. Por certo o que dizeis é que cientes estão de minha condição de penúria e que por isto não posso trabalhar. Entretanto, à disposição coloquei-me de imediato; desta forma, creio que o que trazes é ordem de trabalho e jamais de dispensa.

MENSAGEIRO – Acaso julgas que não sei ler? Bem sei as novas que lhe trago. Dispensado estás de qualquer trabalho. Permanecei em vossa casa, ou à busca de nova colocação, como lhe aprouver. Certo é que, entre os servidores reais, não tens mais lugar.

CICRANO – Não se volte contra mim vossa fúria, ó mensageiro, mas estranho que tais novas tu estejas a trazer-me. Acaso não fui eu quem por tanto tempo suportou calúnia e opróbrio? Acaso não suportei pobreza e privação? Dizei-me, pois, quem é que vos manda com tal presteza e tão pouca amizade?

MENSAGEIRO – Creia, caro Cicrano, e se bem vos conheço hás de ficar desapontado: quem me manda não é outro que não Fulano. Sim, Fulano, vosso chefe, vosso confessor, que tantas ceias e cumprimentos compartilhou consigo.

(Cicrano, incrédulo)

CICRANO – Não posso crer! Não é ele meu confessor? Não é a ele que sempre contei meus dilemas, meus revezes e quem sempre a mim disse “força, eis-nos juntos?” Como pode tal homem agir como se nem ao menos me conhecesse, enviando por um mensageiro tal notícia nefasta? Custa-me a crer, devo dizer-lhe. Por favor, certifique-se de que é isto, e venha a mim trazer confirmação. Se bem o conheço, há de, ao menos, dizer-me tal coisa cara a cara, jamais por meio de um mensageiro!

MENSAGEIRO - Sim, devo confesar-lhe que também a mim causou grande surpresa tal atitude. Talvez devesses, prontamente, buscar saber o que de fato aconteceu. Como bem sabeis, nada a mim dizem sobre cousa alguma.

CICRANO - Tens razão! Farei isso tão logo venha a alvorada. Certamente há algo a descobrir em tal cenário.


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